Estudo do Evangelho

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que
faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”

(Mateus 7:21)

01 – Genealogia de Jesus - Mt 1.1-17

 

 

 

Esclareço que não sou especialista no assunto e nem alimento a pretensão de esgotá-lo. Apenas gosto de pesquisar e estudar, de tomar contato e de me inteirar de várias outras concepções, ainda que não seja totalmente adepta delas, bem como compartilhar o fruto de minhas buscas e descobertas. Mas sempre apresentarei o que o Espiritismo e a sua literatura têm a dizer sobre a questão. Os livros que não pertencerem ao movimento espírita, serão assim sinalizados.

 

(Obs. Textos com maiores detalhes sobre os propósitos, objetivos e características de cada evangelho serão publicados na seção TEXTOS AUXILIARES. Sobre o Evangelho de Mateus já se encontra lançado. Os outros estão sendo elaborados.)

 

 

 

Mateus 1.1-17

 

"1. Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.

2. Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos,

3. Judá gerou de Fares e Zara, de Tamar, Fares gerou Esrom, Esrom gerou a Aram,

4. Aram gerou a Aminadab, Aminadab gerou a Naasson, Naasson gerou a Salmon,

5. Salmon gerou de Raab a Boez, de Raknab, Boez gerou Jobed, de Ruth, Jobed gerou a Jessé,

6. Jessé gerou ao rei David, David gerou a Salomão, da [mulher] de Urias.

7. Salomão gerou a Roboam, Roboam gerou a Abias, Abias gerou a Asa, 8. Asa gerou a Josafat, Josafat gerou a Joram, Joram gerou a Ozias,

9. Ozias gerou a Joatam, Joatam gerou a Akhaz, Akhaz gerou a Ezequias,

10. Ezequias gerou a Manassés, Manassés gerou a Amós, Amós gerou a Josias,

11. Josias gerou a Jekhonias e seus irmãos por ocasião do exílio da Babilônia.

12. Depois do exílio da Babilônia, Jekhonias gerou a Salathiel, Salathiel gerou Zorobabel,

13. Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliaquim, Eliaquim gerou Azor,

14. Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Akhim, Akhim gerou a Eliud,

15. Eliud gerou a Eleazar, Eleazar gerou a Mathan, Mathan gerou Jacob,

16. Jacob gerou José, marido de Maria, de quem foi gerado Jesus, chamado Cristo.

17. Dessa forma, há no total catorze gerações desde Abraão a David; catorze gerações, de David ao exílio na Babilônia; quatorze gerações do exílio na Babilônia ao Cristo." [1]

 

 

 

 

Lucas 3.23-38

 

"23. Jesus, quando começou, tinha cerca de trinta anos, e era, como se supunha, filho de José, de Eli,

24. de Matate, de Levi, de Melqui, de Janai, de José,

25. de Matatias, de Amós, de Naum, de Esli, de Nagai,

26. de Maate, de Matatias, de Semei, de José, de Jodá,

27. de Joanã, de Resa, de Zorobabel, de Salatiel, de Neri,

28. de Melqui, de Adi, de Cosã, de Elmadã, de Er,

29. de Josué, de Eliézer, de Jorim, de Matate, de Levi,

30. de Simeão, de Judá, de José, de Jonã, de Eliaquim,

31. de Meleá, de Mená, de Matatá, de Natã, de Davi,

32. de Jessé, de Obede, de Boaz, de Salá, de Naasson,

33. de Aminadabe, de Admim, de Arni, e Esrom, de Perez, de Judá,

34. de Jacó, de Isaque, de Abraão, de Tera, de Naor,

35. de Serugue, de Ragaú, de Faleque, de Éber, de Salá,

36. de Cainã, de Arfaxade, de Sem, de Noé, de Lameque,

37. de Metusalém, de Enoque, de Jarede, de Maalalel de Cainã,

38. de Enos, de Sete, de Adão, de Deus." [1]

 

 

 

 

As genealogias do mundo antigo não objetivavam tão somente transmitir uma informação histórico-biológica. Ainda que recorrendo a fontes oficiais da época, tanto a sequência de gerações constantes do Antigo Testamento, como os escritos referentes, por exemplo, aos reis da Babilônia ou às tradições beduínas e nômades, pretendiam relacionar o personagem principal com o passado, no intuito de destacar a sua importância para o presente e, em alguns casos, projetar essa relevância igualmente para o futuro.

 

De a Bíblia de Estudo Almeida:

Os judeus, sobretudo depois do exílio, deram grande importância às listas dos antepassados ou ascendentes, chamadas genealogias (cf., p. ex., 1Cr 1-18). Dessa maneira, pretendia-se mostrar que faziam parte do povo de Israel: a uma tribo e família determinadas. No caso de Jesus, dá-se especial importância ao fato de ser descendente da família do rei Davi.Cf. Rm 1.3-4. [2] p. 14

 

Os escritores dos sinóticos Evangelhos de Mateus e de Lucas, influenciados pelos textos do Judaísmo e contexto cultural de então, bem como pela tradução grega das escrituras hebraicas (Septuaginta ou Versão dos Setenta - LXX), adotam o modelo das genealogias ou lista das gerações presentes nessas obras. Parte delas aparece em Gênesis, Rute e 1Crônicas. Gênesis nos fornece a genealogia desde Adão, passando por Salomão e Zorobabel; Rute e 1Crônicas, em conjunto, nos contam de Adão a Davi

 

Desse modo, as genealogias de Jesus visam legitimar, legal e publicamente, a sua pessoa como descendente de uma linhagem real – pois ambas possuem Davi como ponto de referência comum –, condição essa imprescindível para proclamá-lo como sendo o Messias prometido aos israelitas, Filho de Deus e Salvador (do gr. Sóter) da humanidade, reconhecido que foi pelos judeus, mas rejeitado pelas autoridades políticas e, sobretudo, religiosas desse povo.

 

As profecias do Antigo Testamento afirmavam que o Messias seria da descendência de Abraão (Gn 12.1-3), pela Tribo de Judá (Gn 49.10), que viria de Belém, da Judeia, e da linhagem do rei Davi (2 Sm 7.12-16; Sl 89.1-5; Sl 110; Mq 5.1-2).

 

Destacamos a profecia constante de Miqueias (5.1-2):

E tu, Belém-Efrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel. Suas origens são de tempos antigos, de dias imemoráveis. Por isso ele os abandonará até o tempo em que a parturiente dará à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para os israelitas. Ele se erguerá e apascentará o rebanho pela força de Iahweh, pela glória do nome de seu Deus. Eles se estabelecerão, pois então ele será grande até os confins da terra. [3] p. 1640

 

A questão de Jesus descender, portanto, de Adão e de Abraão, através de Davi, era para os evangelistas de vital importância, pois a “Abraão, Deus fez a promessa de bênçãos aos seus descendentes e a todas as nações (cf. Gn 12.3; 17.4-9; 22.15-18; Mt 28.19; Gl 3.16). As promessas feitas a Davi alimentaram a providência especial de Deus na preparação da vinda do Messias.”  [2] p. 14

 

De Hermínio Correa de Miranda:

Guignebert [a] informa que a descendência davídica de Jesus foi aceita pelos cristãos primitivos, mas o messianato de Jesus “jamais foi deduzido da sua descendência davídica”. Justamente o contrário ocorreu: primeiro acreditou-se que “ele era o Messias e daí inferiu-se que descendia de Davi”. [4] p. 48

 

[a] Charles Guignebert (1867-1939), francês, professor de História do Cristianismo, na Sorbonne, Paris. Autor de Le Christ, 1943.

 

Para patentearem essa ancestralidade real e divina, Mateus e Lucas relacionam nomes reconhecidos como autênticos pelos judeus. Uma das hipóteses para a omissão de algumas pessoas é que, para se autenticar uma genealogia, não era necessário citar cada indivíduo do elo da linhagem. Temos, por exemplo, o caso de Esdras. Para provar sua linhagem sacerdotal (Esdras 7.1-5), o autor deixou de citar diversos nomes constantes da lista de sacerdotes apresentada em 1Crônicas 6.1-15.

 

De Louis-Claude Fillion:

Cristo veio do Pai (Jo 16.28), mas nasceu de uma mulher (Gl 4.4).

Já os textos proféticos expressavam essa dualidade, essas duas origens. O Esperado havia de descer do céu, assim como a chuva desce do céu, e havia de surgir da terra da mesma forma que um grão nasce da terra (Is 44.6-8).

(...) Os Evangelhos percorreram e depois destacaram alternadamente um e outro aspecto. Jesus é o Christus, o Rei messiânico do mundo, e o Kirios, o Senhor dos céus e da terra; é o verdadeiro Salvador de Israel e o Emanuel que monta a sua tenda no meio do seu povo.

(...) Falando da humanidade de Cristo, Paulo lembrou que Jesus nasceu da descendência de Davi segundo a carne (Rm 1.3), e os evangelhos de Mateus e Lucas iniciam com a genealogia humana do Mestre; maneira semítica de apresentar os hebreus, que tinham a sua ascendência e a sua fecundidade como bênçãos do Senhor (Dt 7.12-13). A esterilidade, pelo contrário, constituía a mais dura maldição (Is 5.5,6) e era considerada unanimemente como castigo de algum ignominioso pecado (Lv 20.20)

(...) Aquele esmero com que os judeus retinham a lista dos seus antepassados era fruto de sua consciência de povo eleito e devia-se, sem dúvida, a uma clara inspiração divina. Haviam recebido a promessa do Messias, o qual tinha de nascer da descendência de Abraão. Formava, pois, um povo de eleição, um povo à parte.

(...) Mesmo que na nova humanidade fundada em Cristo não haja distinção entre os judeus e gentios (Gl 3.28), estes não passam de ramos silvestres enxertados no tronco de Israel (Rm 11.16-20). Em nosso critério atual, tão hostil a todo tipo de racismo, é custoso admitir isto, mas devemos reconhecer a necessidade de que assim Deus fez para salvar a integridade da Encarnação.

A Encarnação exigia uma seleção prévia de troncos e ramos e mui precioso caminho desde a terra até a flor, a fim de que a Encarnação se enraizasse verdadeiramente na carne. [5]  p. 166-168

 

Há que se notar que as duas genealogias, marcadamente masculinas, refletem o patriarcalismo dominante, bastante comum nos modelos encontrados na bíblia hebraica.

 

De Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita:

Mateus, entretanto, introduz uma inovação quando inclui na sua lista nomes das mulheres Tamar, Raab, Rute e Betsabé, esposa de Urias. Tal fato se revela especialmente singular porque essas mulheres não eram israelitas. [6] p. 74

 

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Em Mateus, temos uma genealogia a partir de Abraão, em sentido descendente; em Lucas, encontramos uma lista ascendente que culmina em Adão.

 

De a Louis-Claude Fillion:

A genealogia de Mateus, que é descendente, traça a marcha de Deus até o homem para Jesus levar sobre si os pecados da humanidade; Lucas, pelo contrário, traça sua genealogia em sentido ascendente, por isso suas omissões refletem a eliminação dos pecados que Cristo, com o derramamento do seu sangue, obteve, e termina em Deus, assinalando assim também aos nossos olhos e ao nosso coração qual há de ser nossa última meta, nosso último repouso. [5] p. 168

 

Mas não é somente a ordem inversa que faz diferir as duas listas. Os nomes também não estão conformes.

 

Em Mateus tem-se 77 nomes (retomando o simbolismo do algarismo 7); em Lucas, 56 (7 x 8). Mas, neste, Matate e Levi são relacionados duas vezes (vv. 24 e 29). Estudiosos acreditam poder essa repetição tratar-se de engano de copista.

 

Muito embora atuais contestações, alguns exegetas defendem que Lucas seguiu pelos antepassados de Maria, traçando uma linhagem através de Natã, filho de Davi, para demonstrar que Jesus é seu descendente natural. Na perspectiva deste Evangelho, mesmo que não sendo filho natural de José, pois Jesus é o "Filho de Deus", seu nascimento foi intermediado por uma humana também descendente desse rei.  "Jesus, quando começou, tinha cerca de trinta anos, e era, como se supunha, filho de José, de Eli.” 

 

Por sua vez, Mateus seguiu por Salomão, outro filho de Davi, para provar que o Cristo é descendente legal ao seu trono, através de José. "Jacob gerou José, marido de Maria, de quem foi gerado Jesus, chamado Cristo."

 

De a Bíblia de Jerusalém:

Diversos documentos gregos e latinos disseram de modo mais preciso: “José, com o qual desposou a Virgem Maria, que gerou a Jesus”. E certamente dessa leitura mal compreendida que resulta a sir. sin.: “José, com o qual estava desposada a Virgem Maria, gerou a Jesus”. [3]  p. 1704

 

De Haroldo Dutra Dias, sobre a paternidade de José em Mateus:

O evangelista sugere que o nascimento de Jesus se deu, única e exclusivamente, por obra de Deus. O texto é controvertido, apresentando três principais variantes textuais: 1) “Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”, apoiada por larga representação de famílias textuais e pelos primeiros testemunhos gregos e primeiras versões (latim, siríaco, copta), incluindo os principais unciais;  2) “Jacó gerou José, de quem, estando noiva a virgem Maria, teve a Jesus, o qual é chamado Cristo”, apoiado pelo testemunho cesareano e vários mss do latim antigo, além de formas do mss siríaco curetorianos; 3) “Jacó gerou José; José de quem estava noiva Maria, a virgem, gerou a Jesus, que é chamado o Cristo”, confirmado pelo ms siríaco sinaítico. [1] p. 39

 

Cada genealogia, seguindo por caminhos específicos, objetiva provar, portanto, que Jesus é, de fato, descendente de Davi, seja através de Salomão ou de Natã: Mateus em sua linhagem paterna e Lucas, na materna.

 

Ainda que as genealogias estivessem indicando José apenas como pai adotivo, que concedeu a Jesus o direito legal de ser seu filho, se houvesse alguma contestação de que seu nascimento fosse ilícito, o fato de José ser o esposo de Maria e dar-lhe proteção com seu nome e linhagem real, invalidaria qualquer opinião em contrário.

 

Novamente enfatizando, as duas listas deixam entrever duas concepções:

 

1 - que Jesus era realmente o “Filho de Deus” e herdeiro natural do Seu Reino pelo nascimento milagroso por meio de Maria, que era (conforme suposto) da linhagem de Davi;

 

2 - que Jesus era também o herdeiro legal da linhagem masculina, desdencente de Davi e Salomão, por meio do seu pai adotivo (como se supunha), José.

 

De a Bíblia de Jerusalém:

A genealogia de Mt, embora sublinhe influências estrangeiras do lado feminino (vv. 3.5.6) limita-se ascendência israelita de Cristo. Ela tem por objetivo relacioná-lo com os principais depositários das promessas messiânicas, Abraão e Davi, e com os descendentes reais deste último (2Sm 7,1+; Is 7,14+). A genealogia de Lucas, mais universalista, remonta a Adão, cabeça de toda humanidade. De Davi a José, as duas listas só tem dois nomes em comum. Essa divergência pode explicar-se, seja pelo fato de Mt ter preferido a sucessão dinástica à descendência natural,  seja por admitir-se a equivalência entre a descendência legal (lei do levirato, Dt 25,5+) e a descendência natural.  Por outro lado o caráter sistemático da genealogia de Mateus é realçado pela distribuição dos antepassados de Cristo em três séries de duas vezes sete nomes (cf. 6,9+), o que leva à omissão de três nomes entre Jorão e Ozias e à contagem de Jeconias (vv. 11-12), como dois (esse nome grego pode traduzir os dois nomes hebraicos Iehoiaqim e Iehoiakin, muito semelhantes entre si). As duas listas terminam com José, que é apenas o pai legal de Jesus: a razão está em que, aos olhos dos antigos, a paternidade legal (por adoção, levirato  etc) bastaria para conferir todos os direitos hereditários, aqui os da linhagem davídica. Naturalmente, não se está excluindo a possibilidade de Maria também ter pertencido a essa linhagem embora os evangelistas não afirmem. [3] p. 1703 (o destaque em negrito é meu)

 

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Particulares de Mateus

 

De Haroldo Dutra Dias:

Na versão de Mateus, a história bíblica é novamente narrada e interpretada de uma perspectiva ou agenda que revela seletividade e parcialidade. A cadeia de eventos, personagens e cenários (história) são apresentados de uma estrutura, forma de expressão, apresentação de conteúdo, ponto de vista (Discurso) que refletem um propósito teológico, uma função sócio-pastoral e uma contribuição do narrador à compreensão da história bíblica passada, presente e futura. A genealogia coloca a origem de Jesus e, por conseguinte, a de seus seguidores, no centro do plano de Deus. Cada nome mencionado evoca estágios desse plano, demonstrando que as promessas divinas, a vontade soberana do Altíssimo se sobrepõem às fragilidades e iniquidades humanas. Os propósitos de Deus, que envolvem a formação de um povo, são amplos e inclusivos, já que se estendem pelo território judaico (Israel, Judá) e pagão (Ur dos caldeus, Babilônia), incluem homens e mulheres (Mt 1:3,5,16), pagãos e judeus, gigantes da tradição (Abraão e Davi) e anônimos esquecidos, poderosos e oprimidos. As personagens não são selecionadas como modelos de fidelidade  e virtude, visto que a maioria conhece a fidelidade e a infidelidade, a virtude e o vício. No entanto, os propósitos divinos, embora ameaçados pelo mal e pela inconstância do ser humano, não são frustrados. Jesus, "filho de Abrão, filho de David" (Mt 1:1) é o Messias, comissionado para concretizar as promessas divinas, num mundo em que a elite e os poderosos teimam em resistir aos propósitos de Deus. Os seguidores do Cristo vivem no mundo abençoado, no qual Deus opera incessantemente, mas conturbado, já que seus propósitos nem sempre são acolhidos. A comunidade cristã é marginalizada por estruturas políticas, culturais, sociais e religiosas (Templo Judaico, Sinagoga e Império Romano), mas sua identidade é forjada e fortalecida na crença de que vivem segundo os propósitos do "Deus de Israel". [1] p. 25

 

Realçando a origem hebraica e messiânica de Jesus, Mateus inicia sua genealogia, anotando ser ele “filho de David, filho de Abraão”.

 

O ordenação descendente de nomes partindo de Abraão, numa sequência de “A gera B”, apresenta, simbolicamente, um esquema histórico: de Abraão (aprox. 2000 a.C.) a Davi (aprox. 1040-970 a.C.), de Davi ao exílio na Babilônia (início em 598 a.C.), da Babilônia a José, “marido de Maria”.

 

Entende-se que a intenção de Mateus não tenha sido fazer uma pesquisa de arquivo sobre os antepassados de Jesus, pois recorrendo à história de Israel e às suas etapas fundamentais, busca revelar o sentido da figura de Jesus no interior desta história, que é de salvação para todo aquele que crê.

 

Suas três séries de 14 (2 x 7) gerações cada uma, muito embora a terceira só chegue ao número 14 se contarmos o nome de Maria, trata-se de um esquema ideal e artificial baseado no número 7, que tem caráter simbólico.

 

De a Bíblia de Estudo Almeida:

Na Bíblia, o número sete representa o que é completo e perfeito.  [2] p. 20

Tanto em Israel como no Antigo Oriente em geral o número sete representava a perfeição e a plenitude. [2] p. 23

 

De Hermínio Correa de Miranda:

A genealogia de Mateus é mais “artificial do que histórica na sua estrutura”, o que depreende do seu arranjo certinho, em três grupos iguais de catorze gerações. (...) ainda que o espaço de tempo implícito em cada um dos três grupos é grande demais para conter apenas catorze gerações, de vez que decorreram 750 anos de Abraão a Davi, 400 de Davi ao exílio da Babilônia e cerca de 600 daí até o nascimento de Jesus. Tomando-se 30 anos para cada geração, chegamos a apenas 420, ou seja, um total de 1260 anos para as 42 gerações, quando, em realidade,  passaram-se cerca de 1750. [4] p. 48

 

Novamente de Haroldo Dutra Dias, a respeito do aspecto literário-redacional da genealogia de Mateus, bem como da divisão das gerações:

Não é difícil constatar que o evangelista saltou, propositadamente, nomes na sequência genealógica, com a finalidade de ajustar o número de descendente ao seu quadro esquemático de três grupos de quatorze gerações. Esse procedimento redacional foi adotado mais de uma vez ao longo dessa verdadeira peça literária chamada “genealogia de Mateus”. [1] p. 36

 

(...) Diversos livros bíblicos, incluindo apócrifos e pseudepígrafos, comparavam a história da humanidade a uma sucessão de eras, dentro da qual Deus estabeleceria uma espécie de era final, com ampla renovação do homem e do mundo, em etapa próxima à era presente. O livro de Daniel (Dn 2,7) apresenta a divisão de quatro eras intermediárias mais uma era final. No livro de Enoc (1En 93:1-10, 91:12-17) divide-se a história humana em dez períodos, ao passo que no livro de Baruc (2 Bar 27:53-74) essa divisão comporta doze eras mais duas finais. Na perspectiva de Mateus, há três séries de quatorze gerações, culminando com o nascimento de Jesus, que simboliza o amanhecer da “nova criação”. O foco das três séries artificiais de quatorze gerações reside na ascendência israelita do Cristo. Procura-se relacionar a figura de Jesus com os principais depositários das promessas messiânicas, Abraão e Davi, tanto quanto com os descendentes monarquicos do Reino de Judá. Alguns estudiosos sugerem que o número quatorze seja resultante da soma das consoantes hebraicas DaViD (D=4 + V=6 + D=4 = 14), procedimento conhecido pelo nome de gematria, largamente utilizado pelos sábios de Israel na interpretação das escrituras. Outros mencionam os cômputos apocalípticos daquela época, segundo os quais Jesus surgiu na “plenitude dos tempos”, ou seja, no final da sexta semana (3 x 14 = 6 x 7) da história bíblica, que se iniciou com a vocação de Abraão (Gn 15:1-6) e a consequente promessa de “semente” (descendência). [1] p. 40

 

 

Demais considerações sobre os seguintes vocábulos:

 

 

- “Livro da genealogia”: expressão que talvez evoque o Livro das Origens (Gn 1:4, 5:1), sugerindo uma nova criação.

        

 

- “Jesus”: forma grega e/ou a transliteração do nome hebreu Josué/ Jeshua, derivado do vocábulo hebraico Ieshúa (Jesus), forma tardia de Iehoshúa (Josué).

“O historiador Flavio Josefo menciona, em seus escritos, aproximadamente 19 pessoas com o nome "Jesus", sendo que metade deles eram contemporâneos de "Jesus, chamado Cristo" (Antiguidades Judaicas 20,9,1). Há ocorrências dessa palavra, também, em numerosos escritos judaicos do período, em túmulos e ossuários da vizinhança de Jerusalém, demonstrando que esse nome era extremamente comum naquela época.” [1] p. 26

 

 

- “Cristo”: do grego Khristós: objeto ou pessoa ungida, untada com azeite, óleo, cosmético, tinta, cal.

Em hebraico, Messias quer dizer ungido, e o mesmo significa a palavra grega Cristo. No Antigo Testamento, reis e sacerdotes judeus eram ungidos com óleo e chamados de "ungidos de Deus".

No contexto do ritual religioso judaico, "ungir" envolvia a aplicação cerimonial de óleo no tabernáculo, no altar ou na bacia (Ex 40:9-11), indicando uma separação oficial para o serviço divino (Ex 29.36; Lv 8.12; 1Sm 15.17; 2Sm 12.7).

“No entanto, o título de Messias não evocava um catálogo fixo de atividades, deveres ou obrigações, antes, propunha a questão de se saber para qual atividade aquele ungido específico foi comissionado. (...) A genealogia de Mateus se propõe a responder a seguinte questão: Para qual atividade, tarefa, papel ou missão especial Deus "ungiu" ou designou Jesus? A resposta permeia toda a narrativa evangélica, incluindo a genealogia, mas a passagem encontrada em Mateus 1:21-23 pode representar um significativo resumo.” [1]  p. 27

 

 

- “Abraão”: forma grega e/ou transliterada do nome hebraico Abraham.

A narrativa bíblica (Gn 11.27 a 12.8) apresenta-o como o primeiro dos Patriarcas, o ancestral do povo de Israel.

“Personagem emblemática que exprime a mais profunda experiência profética daquele povo, visto que, renunciando integralmente sua segurança pessoal, atendeu ao chamado de Deus, confiando na promessa divina de uma posteridade abundante. A história evoca o tema da graça e solicitude de Deus, que chamou um pagão, na cidade de Ur dos caldeus, a fim de, por seu intermédio, abençoar todas as nações da terra (Gn 12:3; 18:18). (...) A genealogia conecta Jesus a essa imponente figura do passado de Israel, buscando salientar o fato de que, como descendente de Abraão, Jesus promulga em definitivo a bênção de Deus sobre todas as nações da terra. Dito de outra forma, o texto sugere que em Jesus se concretiza a promessa feita a Abraão.” [1] p. 27

 

“ABRAHM, primitivo nome que significa “pai da exaltação”, mas que posteriormente foi mudado para ABRAHAM, isto é, “pai da multidão”. (Observe-se, em A-BRAHM o radical de BRAHMA, no hinduísmo; e se dividirmos ABRHAM, o significado de PAI RAHM, o conhecido RA dos Egípcios).” [7]  p. 68

 

 

- “Davi”: Filho caçula de um agricultor de Belém (Jessé), foi ungido Rei pelo profeta Samuel (1Sm 16.13). Conforme já anotado, o Messias prometido é visto como alguém que viria de Belém, da Judeia, da linhagem de Davi (2Sm 7.12-16; Sl 89.1-5; Sl 110; Mq 5.1-2).

“Durante trinta e três anos governa sobre todo o território de Israel (Norte e Sul), expandindo as fronteiras do Reino, com guerras vitoriosas, promovendo a centralização administrativa e religiosa em Jerusalém, que se torna a capital e centro do culto. Seu reinado alcança prosperidade material, estabilidade política e religiosa, além de crescente influência no mundo da sua época. Os livros de Samuel, Crônicas e Reis contam sobre sua vida e reinado. Todavia, em virtude da natureza idealizada de sua pessoa e reinado, bem como da aliança messiânica evocada no ato da sua unção, há referências ao Rei Davi em Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Amós e Zacarias.” [1] p. 32

 

“(...) Mas qual era, na época de Jesus, o significado exato da expressão Filho de Davi? Esse título supõe diretamente que aquele que o ostenta teria a dignidade do rei e o exercício das funções reais.

Era nesse sentido que as turbas o empregavam, e, quando Jesus entrou triunfante nas ruas de Jerusalém e no templo na condição de Messias, as multidões que lhe deram glórias e hosanas diziam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas! (Mt 21.9,15; Mc 11.10; Lc 19.38). Mas, contrariamente ao que as falsas e até extravagantes ideias anunciavam, a realeza de Cristo era, antes de tudo, espiritual e religiosa. Excluía as proezas e ruidosas conquistas militares.

A missão de Jesus como o Rei era promover a paz de Deus com os homens e destes uns com os outros. E as pessoas que compreenderam esse propósito creram no Messias como o prometido Salvador, tão poderoso como compassivo, que é capaz de aliviar todas as dores da alma humana subjugada pelo pecado. Elas compreenderam bem esse caráter do Reino de Jesus, por isto muitos se apertavam ao seu redor e imploravam sua piedade, invocando-o como Filho de Davi. Assim é que, havendo Jesus realizado curas e milagres (Mt 9.27; 15.22; 20.30-31), aqueles que foram testemunhas perguntavam uns aos outros: Não é este o Filho de Davi? (Mt 12.23).” [5] p.  171-172

 

 

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Particulares de Lucas

 

Em Lucas, a descrição dos nomes não ocorre por ocasião do nascimento de Jesus, como em Mateus, mas no início do seu ministério público (aos 30 anos).

 

Em sua ordenação ascendente, inicia a lista com Jesus (“e era, como se supunha, filho de José”), subindo não a Abraão, mas a Adão, através da fórmula “A filho de B”. A última sequência da cadeia genealógica é o próprio Deus (“de Adão, de Deus”).

 

Em virtude desse realce universalista (“filho de Adão”) e divino (“filho de Deus”), Lucas, ao culminar os antepassados de Jesus em Adão, “cabeça” de toda a humanidade, intenta destacar que Jesus se solidarizou com toda a raça humana. Seu Evangelho não estava sendo lido apenas pelos seguidores de Jesus (judeus-cristãos), mas também pelos cristãos de origem pagã (os gentios). Daí a necessidade de ir para além de Abraão e chegar até Adão, “pai” de todos os homens. Jesus seria um segundo Adão, que veio para resgatar a humanidade da queda ocorrida no Éden.

 

De a BÍBLIA DE JERUSALÉM:

Descendente de Adão e como este sem pai terrestre (1,35), Jesus inaugura uma nova raça humana: talvez Lucas, discípulo de Paulo, pense no Novo Adão (Rm 5,12+). [3] p. 1793

 

 

Demais considerações sobre o seguinte vocábulo:

 

 

- “Adão”: em hebraico Adam, tem simplesmente o sentido do substantivo comum "homem".

“O homem, ‘adam’, vem do solo, ‘adamah’ (Gn 3,19). Este nome coletivo tornar-se-á o nome próprio do primeiro ser humano, Adão.” [3] p. 35

De a BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA para Gn 1.27:

Homem: Hebr. Adam; designa aqui todo o gênero humano. Em outras passagens, este mesmo termo tem o significado de um nome próprio (Adão). Cf. Gn 4.25. [2] p. 20

 

 

 

 

Raça Adâmica

 

38. Segundo o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, querendo-se, uma dessas colônias de Espíritos, vindos de uma outra esfera, que deram nascimento à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por esta razão, chamada raça adâmica. Quando ela chegou, a Terra estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando chegaram os Europeus. Pág. 197

 

(...) Está bem reconhecido hoje que a palavra hebraica haadam não é um nome próprio, mas que significa o homem em geral, a Humanidade, o que destrói todo o alicerce construído sobre a personalidade de Adão. [8] p. 218

 

(...) A presença de outros habitantes ressalta igualmente desta palavra de Caim: “Eu serei fugitivo e vagabundo, e quem quer que me encontre me matará”, e da resposta que Deus lhe deu. Por quem poderia temer ser morto, e para que o sinal que Deus pôs sobre ele para preservá-lo, se não deveria encontrar ninguém? Se, pois, havia sobre a Terra outros homens fora da família de Adão, é porque aí estavam antes dele; de onde esta consequência, tirada do próprio texto da Gênese, que Adão não foi nem o primeiro e nem o único pai do gênero humano. (Cap. XI, nº 34.) 1

 

(...) 1. Esta idéia não é nova. La Peyrère, sábio teólogo do século dezessete,

em seu livro Pré-adamitas, escrito em latim e publicado em 1655, tirou do texto original da Bíblia, alterada pelas traduções, a prova evidente de que a Terra era povoada antes da vinda de Adão. Esta opinião é hoje a de muitos eclesiásticos esclarecidos. [8] p. 224-5  

 

 

 

 

 

SUPERIORIDADE DA NATUREZA DE JESUS

 

2. Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, que não entra no quadro desta obra examinar, e não o considerando, por hipótese, senão um Espírito superior, não se pode impedir de reconhecer nele um daqueles de ordem mais elevada, e que colocado, pelas suas virtudes, bem acima da Humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que ele produziu, a sua encarnação neste mundo não poderia ser senão uma dessas missões que não são confiadas senão aos mensageiros diretos da Divindade para o cumprimento de seus desígnios. Supondo ele não fosse o próprio Deus para transmitir a sua palavra, ele seria mais do que um profeta, porque seria um Messias divino.

 

Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, desligado da matéria, deveria viver a vida espiritual mais do que a vida corpórea, da qual tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particulares de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres (Cap. XIV, nº 9).

 

(...) Agia, pois, por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, assim como podem fazê-lo os encarnados em certos casos e na medida de suas forças. Que Espírito, aliás, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de transmiti-los? Se recebesse um influxo estranho, este não poderia ser senão de Deus; segundo definição dada por um

Espírito, ele era médium de Deus. [8] p. 269-271.  

 

 

 

 

1

Exclusivos Intuitos de Jesus e seu Pensamento Íntimo

 

"Eu sou a luz que vim ao mundo, para que o que crê em mim não permaneça nas trevas." (João, XII, 46.)

 

"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas..."

(João X, 11.)

 

"Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida." (João VIII, 12.)

 

"Se alguém tiver sede venha a mim e beba" (João VII, 37.)

 

"Eu sou o pão vivo que desci do céu." (João, VI, 51.)

 

"Eu sei, respondeu a mulher, que vem o Messias (que se chama Cristo); quando ele vier, anunciar-nos-á todas as coisas. Disse-lhe Jesus:

Eu o sou, eu que falo contigo" (João, IV, 25-26.)

 

(...) "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim." (João XIV, 6.)

 

As palavras de Jesus excluem antecipadamente todas as idéias falsas que se possam fazer sobre Ele e o seu escopo primordial.

 

O motivo exclusivo da sua vinda a este mundo foi, como profetizou Isaías, fazer raiar a Luz aos que se achavam na região da morte: dar crença aos que não a tinham, guiar os que se haviam perdido e se achavam desviados da Estrada da Vida, animá-los e vivificá-los, finalmente, apresentar-se a todos como o Modelo, o Paradigma, o Enviado de Deus, o único Mestre capaz de legar um ensino puro e perfeito, o verdadeiro representante da Verdade que redime e salva. Daí a sua sentença: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por mim."

 

Querendo excluir de si mesmo toda a primazia divina, Ele não se apresenta, apesar da sua incomparável missão, como sendo Deus, o Pai, mas, sim, como um seu Enviado - o Cristo.

 

(...) Ele apresentou-se no cenário terrestre como o Médico que deveria restabelecer a saúde das almas; como o Pregoeiro a anunciar a todos o Reino de Deus; como um eleito do Céu, cheio de amor e poder para dominar Potestades e Elementos.

 

(...) Humilde em extremo, mas de uma energia inquebrantável; bondoso, mas justiceiro; estrito cumpridor dos seus deveres; trabalhador incansável, cujos feitos soube tão brilhantemente unir à sua Palavra redentora, a ponto de chegarem a aclamá-lo Deus.

 

(...) Jesus é a Luz do Mundo, o Sal da Terra, a Água Viva, o Pão, o Suco da Vide, mas, todos esses atributos que e Mestre Galileu a si mesmo conferiu não representam outra coisa senão a Sua Doutrina, o Verbo que nele se fez carne e habitou entre nós.

 

Não transviemos o pensamento íntimo de Jesus, dedicando-lhe honrarias e títulos que Ele não usou, e nem revistamos a Sua Palavra de preceitos e de roupagens que só podem desnaturá-la.

 

"O discípulo não pode ser mais do que o Mestre" e só nele permaneceremos se a Sua Palavra permanecer em nós, livre dos abusos de interpretações e do dogmatismo bastardo que transvia as almas e obscurece o Seu Evangelho.

 

Finalmente, o pensamento íntimo do Mestre quando veio a esse mundo, não teve intuitos glorificadores, mas de concorrer para que essa Religião Sublime do Amor a Deus e ao Próximo se tornasse conhecida de todos e pudesse, em breve tempo, substituir os fermentos farisaicos que até hoje envenenam a Humanidade. [9] p. 22

 

 

 

 

A GRANDE LIÇÃO

 

Sim, o mundo era um imenso rebanho desgarrado. Cada povo fazia da religião uma nova fonte de vaidades, salientando-se que muitos cultos religiosos do Oriente caminhavam para o terreno franco da dissolução e da imoralidade; mas o Cristo vinha trazer ao mundo os fundamentos eternos da verdade e do amor. Sua palavra, mansa e generosa, reunia todos os infortunados e todos os pecadores. Escolheu os ambientes mais pobres e mais desataviados para viver a intensidade de suas lições sublimes, mostrando aos homens que a verdade dispensava o cenário suntuoso dos areópagos, dos fóruns e dos templos, para fazer-se ouvir na sua misteriosa beleza. Suas pregações, na praça pública, verificam-se a propósito dos seres mais desprotegidos e desclassificados. Como a demonstrar que a sua palavra vinha reunir todas as criaturas na mesma vibração de fraternidade e na mesma estrada luminosa do amor.  Combateu pacificamente todas as violências oficiais do judaísmo, renovando a Lei Antiga com a doutrina do esclarecimento, da tolerância e do perdão. Espalhou as mais claras visões da vida imortal, ensinando às criaturas terrestres que existe algo superior às pátrias, às bandeiras, ao sangue e às leis humanas. Sua palavra profunda, enérgica e misericordiosa, refundiu todas as filosofias, aclarou o caminho das ciências e já teria irmanado todas as religiões da Terra, se a impiedade dos homens não fizesse valer o peso da iniquidade na balança da redenção. [10] p. 107

 

 

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

 

 

Referências

 

[1] DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

[2] BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. (literatura não-espírita)

 

[3] BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. (literatura não-espírita)

 

[4] MIRANDA, Hermínio C. Cristianismo: a mensagem esquecida. 3. ed. Matão, SP: Casa Editora O Clarim, 2001.  

 

[5] FILLION, Louis-Claude. Enciclopédia da vida de Jesus. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2008. (literatura não-espírita)

 

[6]  MOURA, Marta Antunes de Oliveira (Org.). Estudo aprofundado da doutrina espírita: cristianismo de espiritismo. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do espiritismo/organizado por Marta Antunes de Oliveira Moura. 1. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2015. Volume 1.

 

[7] PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Publicação da Revista Semanal. Rio de Janeiro. 1964.  Volume 1. Disponível na Internet em: http://bvespirita.com/Livros-C.html, acessado em 26.05.2018

 

[8] KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 8. ed. Araras, SP: IDE, 1995.

 

[9] SCHUTEL, Cairbar. O Espírito do Cristianismo. 8. ed. Matão, SP: Casa Editora O Clarim, 2001.

 

[10] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). A caminho da luz: história da civilização à luz do espiritismo. 29. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.

 

OLIVEIRA, Therezinha. Estudos Espíritas do Evangelho. 5. ed. Campinas, SP: Centro Espírita “Allan Kardec” – Dep. Editorial, 2001.  

 

BIBLIOTECA ON-LINE da Torre da Vigia. Genealogia de Jesus Cristo. Disponível na Internet em: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1200001647 - acessado em 26.05.2018 (literatura não-espírita)

 

RAVASI, Cardeal Gianfranco. A Genealogia de Jesus Cristo. Disponível na Internet em: http://www.a12.com/redacaoa12/espiritualidade/a-genealogia-de-jesus-cristo  - acessado em 26.05.2018  (literatura não-espírita)

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