Estudo do Evangelho

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que
faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”

(Mateus 7:21)

02 - EVANGELHO DE MATEUS

 

 

 

Esclareço que não sou especialista no assunto e nem alimento a pretensão de esgotá-lo. Apenas gosto de pesquisar e estudar, de tomar contato e de me inteirar de várias outras concepções, ainda que não seja totalmente adepta delas, bem como compartilhar o fruto de minhas buscas e descobertas. Mas sempre apresentarei o que o Espiritismo e a sua literatura têm a dizer sobre a questão. Os livros que não pertencerem ao movimento espírita, serão assim sinalizados.

 

 

 

Tradicionalmente, os autores dos quatro primeiros livros do Novo Testamento recebem o nome de "evangelistas", título que na Igreja* primitiva correspondia às pessoas a quem, de modo específico, se confiava a função de anunciar a boa nova de Jesus Cristo (At 21.8;  Ef 4.11;  2Tm 4.5;  Cf. At 8.12,40).

 

*Igreja: "Palavra de origem grega que, no uso comum, significava "assembleia" ou "reunião", celebrada com prévia convocação ou chamado. Em Atenas, a ekklesia era a assembleia dos cidadãos. Paulo usa com frequência essa palavra para referir-se tanto à congregação local dos crentes cristãos, como à comunidade cristã universal. No NT, o termo não é usado para designar o edifício onde os cristãos se reúnem."  [1]   ("Auxílios para o leitor". p. 62)

 

Durante os anos que se seguiram à ascensão do Senhor, a pregação apostólica foi sobretudo verbal, como vemos na leitura de Atos.  Mais tarde, quando começaram a desaparecer aqueles que haviam conhecido Jesus em pessoa, a Igreja sentiu a necessidade de fixar por escrito a memória das palavras que haviam ouvido dele e dos seus atos que haviam presenciado. Durante certo tempo, circularam entre as comunidades cristãs de então numerosos textos referentes a Jesus, que, na maioria dos casos, eram simples apontamentos dispersos e sem conexão. Apesar do seu caráter fragmentário, porém, aqueles breves relatos representaram a passagem da tradição oral à escrita, passagem que presidiu o nascimento dos nossos quatro Evangelhos.

 

O propósito principal dos evangelistas não foi oferecer uma história detalhada das circunstâncias que rodearam a vida do nosso Senhor e dos eventos que a marcaram; tampouco se propuseram a reproduzir ao pé da letra os seus discursos e ensinamentos, nem as suas discussões com as autoridades religiosas dos judeus. Há, consequentemente, muitos dados relativos ao homem Jesus de Nazaré que nunca nos serão conhecidos (...).

 

Na realidade, eles não escreveram para nos transmitir uma completa informação de gênero biográfico, mas, como disse João "para que creiais que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e para que crendo, tenhais vida em seu nome" (20.31).

 

Os Evangelhos contém, pois, um conjunto de narrações centradas na pessoa de Jesus de Nazaré e escritas com um propósito testemunhal, para a edificação da Igreja e para a comunicação da fé. Mas isso não significa que os evangelistas manejaram sem cuidados as palavras e os fatos que recompilaram e que foram os seus elementos de informação. Pois, se bem que é certo que eles não trataram de escrever nenhuma biografia (ao menos no sentido específico que hoje damos ao termo), igualmente é que os seus escritos respondem com fidelidade ao discurso histórico tal e como era elaborado então, seja por haverem conhecido pessoalmente a Jesus ou seja por terem sido companheiros dos apóstolos que viveram junto dele.

 

A obra dos evangelistas nutriu-se especialmente das memórias que, em relação ao Senhor, eram guardadas no seio da Igreja como um depósito precioso. Essas memórias transmitiram-se no culto, no ensinamento e na atividade missionária, isto é, na pregação oral, que, durante longos anos e com perspectiva escatológica*, foi o meio idôneo para reviver, desde a fé e em benefício da fé, o acontecimento fundamental do Cristo ressuscitado." [1] ("Novo Testamento". p. 9)

 

*Escatologia: "1 doutrina ou teoria sobre o fim do mundo e da humanidade;  1.1 TEOL doutrina que trata dos eventos que envolvem o destino final do homem e do mundo;  1.2 qualquer das diversas doutrinas cristãs concernentes à segunda vinda de Cristo à Terra, à ressurreição dos mortos ou ao Juízo Final." [2] 

 

 

 

 

Embora não haja a identificação de seu autor, a tradição da Igreja tem atribuído, desde o século II, a composição do primeiro evangelho do Novo Testamento a Mateus (nome grego, Matháios, que significa "dom de Deus", o mesmo que Teodoro [3] p. 6).

 

Em razão de, na época, ser costume vincular um escrito a uma pessoa conhecida e famosa para que o mesmo tivesse mais Autoridade, alguns defendem esta hipótese para a autoria de Mateus. 

 

Antes de seguir Jesus como um de seus discípulos diretos (Mt 10.1-4,  Mc 3.13-19,  Lc 6.13-16), Mateus era cobrador de impostos para o Império Romano, de nome Levi, filho de Alfeu (Mc 2.14;  Lc 5.27). Foi o mais intelectual do grupo dos doze e testemunha, portanto, de vários acontecimentos da vida do Cristo. Por ter sido um publicano (Mt 9.9 e 10.3), era menosprezado pelos judeus por trabalhar e servir aos governantes pagãos de seu povo. Os publicanos geralmente criavam privações ao arrecadar impostos e, muitos deles, praticavam a extorsão nesse processo.

 

Mateus é escrito seguindo, em linhas gerais, o esquema de Marcos, com passagens também comuns a Lucas, mas apresentando material exclusivo em um quarto de seu conteúdo.

        

De John Dominic Crossan:

Os eruditos do século XIX que estudaram as conexões textuais evidentes entre os três primeiros Evangelhos - os assim chamados Evangelhos sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas - concluíram muito consensualmente que Marcos foi a primeira fonte utilizada - e utilizada independentemente - por Mateus e Lucas. A minha própria pesquisa tem consistentemente confirmado essa conclusão.

Após a decisão geral sobre a prioridade marcana, os eruditos perceberam um corpo de material não marcano comum a Mateus e a Lucas com sequências, conteúdos e teologia comum em número suficiente a ponto de indicar não unidades aleatórias da tradição, mas uma outra fonte escrita muito importante. Os especialistas alemães a denominaram Q, abreviação para die Quelle (alemão para "a fonte").

O Evangelho Q é um texto escrito em grego, mas não guardado em nenhum museu ou biblioteca. Trata-se de uma hipótese necessária - necessária para explicar os dados não marcanos em Mateus e em Lucas. Mais uma vez, minha pesquisa confirmou a validade da segunda conclusão dos eruditos alemães (...). Prefiro, por falar nisso, chamá-la de Evangelho Q em vez de apenas fonte Q, com o objetivo de enfatizar a sua integridade e não apenas o seu uso. Este Evangelho Q não tem referência clara à destruição real de Jerusalém ou de seu templo - como acontece, por exemplo, em Marcos 13 - por isso é normalmente datado do anos 50 do século I.

Nesta apresentação, assim, aceito e assumo a validade da teoria das duas fontes, nomeadamente, que Mateus e Lucas usaram, independentemente, duas fontes Independentes - o evangelho de Marcos e o Evangelho Q. Obviamente, a única forma de confirmar tais hipóteses é aceitá-las temporariamente e testá-las incansavelmente. [4]  p. 85

 

Como todos os livros do Novo Testamento, Mateus chegou-nos em grego, em bom estilo literário, dirigido aos leitores da língua grega, pois, no tempo em que foi composto, a igreja cristã já havia ultrapassado os limites de Israel. Aventa-se que ele tenha sido inicialmente redigido em aramaico, mas não há fundamentação histórica para isso. Se, efetivamente esse texto existiu, o original foi perdido ou destruído. Posteriormente, Jerônimo, secretário do Papa Dâmaso I, o traduziu para o latim, na versão Vulgata (séc. IV). Sua composição ocorreu entre 80 e 100 d.C; seguramente depois de 70, após a destruição de Jerusalém.

 

De a Bíblia de Estudo Almeida:

Os relatos de Mateus, mais concisos que o de Marcos, apresentam um rigoroso e belo estilo e mantém certo tom cerimonial que induz a pensar num escritor de formação rabínica. Para isso contribui a presença no texto de não escassos elementos literários que são tipicamente hebraicos.

(...) Devido aos abundantes idiotismos* semíticos que há no texto, o seu autor deve ter sido um judeu cristão que escreveu para leitores igualmente de origem judaica, mas de fala grega.

Com respeito ao lugar e tempo de composição do Evangelho, não é possível fixá-los com exatidão. Muitos pensam que pode ter sido escrito em terras da Síria, talvez em Antioquia, depois que os exércitos romanos destruíram Jerusalém no ano 70. [1] ("Novo Testamento". p. 11)

 

*Idiotismo: "1 ant. modo de falar plebeu;  (...) 3 LING. traço ou construção peculiar a determinada língua, que não se encontra na maioria dos outros idiomas; locução própria de uma língua(...);  idiomatismo;  locução idiomática;  3.1 LING locução  própria  de uma língua, cuja tradução literal não faz sentido numa outra língua de estrutura análoga, geralmente por ter um significado não dedutível da simples combinação dos significados dos elementos que a constituem." [2]

   

*****

 

De a Bíblia de Jerusalém:

Como por, outro lado, Mateus reproduz muito mais completamente que Marcos o ensinamento de Jesus (que ele tem em grande parte em comum com Lucas) e insiste sobre o tema do "Reino dos Céus" (3,2; 4,17+) pode-se caracterizar seu evangelho como uma instrução normativa sobre a vinda do Reino dos Céus.

Este Reino de Deus (= dos Céus) que deve restabelecer entre os homens a autoridade soberana de Deus como Rei por fim reconhecido, servido e amado, havia sido preparado e anunciado pela Antiga Aliança. Também Mateus, escrevendo para uma comunidade de cristãos vindos do judaísmo e talvez discutindo com os rabinos, aplica-se particularmente a mostrar o cumprimento das Escrituras* na pessoa e na obra de Jesus. A cada passo de sua obra, ele se refere ao AT para provar como a Lei e os Profetas são "cumpridos" (...). Ele o faz para a pessoa de Jesus, confirmando com textos escriturísticos (relativo às Escrituras) sua raça davídica (1,1-17), seu nascimento de uma virgem (1,23), em Belém (2,6), sua estada no Egito, seu estabelecimento em Cafarnaum (4,14-16), sua entrada messiânica em Jerusalém (21,5.16); ele o faz quanto à sua obra, suas curas milagrosas (11,4-5), seu ensinamento que "realiza" a Lei (5,17), dando-lhe uma interpretação nova e mais interior (5,21-48; 19,3-9.16-21). E Mateus não salienta menos fortemente como a humildade dessa pessoa e o aparente fracasso dessa obra também são cumprimento das Escrituras: o massacre dos inocentes (2,17s), a infância escondida em Nazaré (2,23), a mansidão compassiva do "Servo" (12,17-21; cf. 8,17; 11,29; 12,7); o abandono dos discípulos (26,31), o preço vergonhoso da traição (27,9-10), a prisão (26, 54), o sepultamento durante três dias (12,40), tudo isso era o desígnio de Deus anunciado pela Escritura.

(...) Isso, unido à construção sistemática de uma exposição, faz de sua obra a carta da nova economia que realiza os desígnios de Deus em Cristo.

Para Mateus, Jesus é o filho de Deus e Emanuel, Deus conosco desde o início. [5] p.1695

 

*Escritura: "Nome que se dá no NT à coleção de livros que os judeus, Jesus e os primeiros cristãos consideravam como a palavra escrita de Deus para o ser humano (2Tm 3.16; Tg 2.8). Esses escritos são chamados hoje de "Antigo Testamento" ou "Escrituras Hebraicas". A palavra "Escritura" chegou a ser usada para designar a Bíblia inteira, incluindo o NT.  Jesus viu a si mesmo como o cumprimento das promessas das Escrituras em relação ao Messias (Lc 4.21;  Jo 7.38; 20.9; At 1.16)" [1]   ("Auxílios para o leitor". p. 56)

 

Fiel, portanto, às tradições e às práticas religiosas judaicas, à lei e aos profetas, o autor de Mateus, mais do que os dos outros evangelhos, constantemente se reporta aos antigos livros judaicos (1.22-23;  2.15, 17-18, 23;  4.14-16;  8.17;  12.17-21;  13.35;  21.4-5;  27.9-10), introduzindo nessas passagens as palavras "para que se cumprisse" ou "cumpriu-se"  [6].  Desse modo, é somente à luz dos ensinamentos de Jesus que as Escrituras Sagradas tornam-se claras e assumem a sua totalidade e integralidade.

 

De a Bíblia de Estudo Almeida:

Tem-se afirmado que Mateus (= Mt) é por excelência o Evangelho da igreja. Escrito para instruir acerca de Jesus Cristo o novo povo de Deus, apresenta-se diante do leitor como um texto de estrutura basicamente didática.

É evidente que Mateus está mais interessado em coligir e apresentar na sua obra o pensamento de Jesus que em dar-lhe um conteúdo puramente narrativo. Consequência desse enfoque é o fato de que o evangelista nos transmitiu um quadro enriquecedor da cristologia* da Igreja primitiva, quadro que poderia ser resumido em quatro pontos fundamentais:

 (1) Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, é o Messias esperado pelo povo judeu.

 (2) Em Jesus, descendente de Davi (1.6; 20.30-31; 21.9), cumprem-se as profecias messiânicas do Antigo Testamento.

 (3) O povo judeu não chegou a compreender cabalmente a categoria espiritual nem a profundidade da obra realizada por Jesus em obediência perfeita à vontade de Deus.

(4) A rejeição a Jesus, o Cristo, por parte do Judaísmo palestino, projetou a mensagem evangélica ao mundo gentio, revelando desse modo o seu sentido universal. [1] ("Novo Testamento". p. 11)

 

*Cristologia:  "1 estudo da personalidade, história e doutrina de Cristo; 2 tratado acerca desses temas".  [2]

 

*****

 

O evangelista, para enfatizar o aspecto pedagógico da atividade de Jesus e ajudar as pessoas a memorizarem seus ensinamentos, os distribui em discursos um tanto extensos, de característica literária dramática (5.1-2 e 7.28-29;  10.5 e 11.1;  13.3 e 13.53;  18.1 e 19.1;  24.3 e 26.1), e encerrando-os com as seguintes fórmulas/ expressões:

"concluindo Jesus este discurso..."  (7.28)

"concluindo suas recomendações..."  (11.1)

"concluindo estas parábolas, Jesus..."  (13.53)

"concluindo estas palavras, Jesus..."  (19.1)

"concluindo todo este discurso, Jesus..."  (26.1) [6]

 

Das séries de mensagens mais conhecidas, cinco delas constam de Mateus:

-  O sermão do monte - 5.1 a 7.29

-  O apostolado cristão - 10.5-42

-  O Reino dos Céus - 13.3-52

-  A vida da comunidade cristã - 18.3-35

-  O final dos tempos - 24.4 a 25.46

 

Ainda em sua didática, Mateus dispõe, intercaladamente, esses discursos com relatos da vida de Jesus, ordenando-os como se segue:

 

- Cap. 1-4 - relato: infância e início do mistério de Jesus;

 

- Cap. 5-7 - discurso: sermão sobre a montanha (no qual se encontram as bem-aventuranças), no qual Jesus ensina como as pessoas devem viver o Reino de Deus;

 

- Cap. 8-9 - relato: dez milagres que demonstram a autoridade de Jesus e o convite aos seus discípulos:

 

- Cap. 10 - discurso com instruções aos discípulos, quando do envio deles a uma expedição missionária;

 

- Cap. 11-12 - relato: Jesus sendo rejeitado por "esta geração", com o registro de várias controvérsias nas quais ele esteve envolvido;

 

- Cap. 13 - discurso (o central do Evangelho, cfe. considerações logo abaixo): sete parábolas que descrevem alguns aspectos do Reino dos Céus, em conexão com a resposta humana necessária;

 

- Cap. 14-17 - relato: Jesus reconhecido pelos discípulos;

 

- Cap. 18 - discurso que aborda a conduta ideal dos crentes dentro da sociedade cristã;

 

- Cap. 19-22 - relato: a autoridade de Jesus e o último convite;

 

- Cap. 23-25 - discurso apocalíptico*, que contém os ensinamentos relacionados às últimas coisas: as desgraças e a vinda do Reino;

 

- Cap. 26-28 - relato: detalha acontecimentos e ensinamentos relacionados à crucificação, morte e ressurreição.

 

*Apocalíptico: "1 relativo ou pertencente ao Apocalipse, esp. ao último livro canônico do Novo Testamento atribuído pela Igreja católica a são João e rico em visões proféticas e escatológicas; 2 referente a apocalipse (no sentido de 'revelação', 'profecia')" [2]

 

De a Bíblia de Jerusalém:

Devemos notar a correspondência dos relatos (natividade e vida nova, autoridade e convite, rejeição e reconhecimento) e a relação entre o primeiro e o quinto discurso, e entre o segundo e o quarto; o terceiro discurso forma o centro da composição. [5] p. 1695

 

*****

 

Sem se ater a um esquema estritamente biográfico e cronológico, portanto, Mateus apresenta Jesus como Senhor e Mestre, infalível intérprete e cumpridor das expectativas e esperanças das Escrituras (aliança com Abraão e promessa a Davi) que, a partir da verdade e de sua autenticidade, incita e chama a todos a viver uma nova ética: a do Reino dos Céus. E, com esse intuito, ele, entre outras atitudes:

 

- desmascara a falsidade das atitudes que, na essência, visam tão só o aplauso público (5.1);

 

- critica a doação de esmolas a toque de trombetas (6.2-4);

 

- denuncia a ostentação das orações feitas nos cantos das praças (6.5-8;  23.14);  bem como

 

 - não conive com a hipocrisia dos jejuns praticados com o exclusivo propósito de impressionar os outros (6.16-18). 

 

Mateus também contém muitos outros ensinamentos e exortações de Jesus aos seus discípulos (8.20-22;  11.7-19 e 27-30;  12.48-50;  16.24-28;  22.37-40), assim como advertências aos escribas e fariseus (22.18-21;  23.1-36), a Jerusalém (23.37-38) e a algumas cidades da Galileia (11.20-24). [1]

 

Quanto ainda ao tema predominante, o Reino de Deus (= dos céus) (9:35), Mateus o aborda em sua dupla realidade - a presente (4.17; 12.28) e a futura (16.28) -, o que acarreta aos crentes a busca pela justiça (outro tema importante neste evangelho: 3.15; 5.6; 6.1-33; 21.32) e a obediência à Lei. E o anúncio da proximidade desse reino é igualmente tarefa dos discípulos (10.7) de Jesus, que, depois de ressuscitado, prometeu estar entre eles "até a consumação da era"  (28.20) [6]. Desse modo, ele inaugura um reinado espiritual, com toda a sua autoridade, no céu e na terra (28.18).

 

Muitos defendem que a origem judaica do escritor de Mateus fica evidente justamente por ele empregar a expressão "Reino dos Céus", em lugar de "Reino de Deus", já que o nome de Deus não era pronunciado pelos judeus

 

Este Evangelho também registra que Jesus normalmente faz alusão a si mesmo como o "filho do homem", talvez uma referência velada ao seu caráter messiânico (Dn 7.13-14). Isso não somente lhe permitiu evitar mal-entendidos comuns originados de títulos messiânicos populares, como lhe possibilitou interpretar tanto sua missão de redenção* (17.12-22;  20.28;  26.24) quanto seu retorno na glória (13.41;  16.27;  19.28;  24.30-44;  26.64).

 

*Redenção: ato ou efeito de remir; resgate; 1 teol resgate do gênero humano por Jesus Cristo; 2 fig. auxílio, proteção que livra de situação difícil; salvação." [2]

 

Nas controvérsias com os fariseus, fica demonstrada a superioridade das mensagens de Jesus em relação às tradições e às mesquinhas regras e opiniões deles. Na realidade, eles apenas aparentavam retidão de caráter; eram egoístas e cruéis, sobretudo, por desprezarem os mais simples. É por isso que somente Mateus apresenta, com bastantes detalhes, o discurso acusatório de Jesus contra os escribas e os fariseus (23.1-12), bem como a outros hipócritas.

 

De Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita:

Mateus é chamado o homem dos discursos, por ser quem mais cita as fontes. Mostra aos judeus que Jesus é filho de Davi e de Abraão, portanto, o Messias de Israel. (...) Fala na universalidade da mensagem cristã, convidando judeus e não-judeus a aceitarem os seus ensinamentos. Do ponto de vista cristológico, considera Jesus como Rei, Messias que foi rejeitado e que criou outro povo ou comunidade, que é a Ecclesia (Igreja). Emprega o termo kyrios (Senhor), enquanto os outros usam o termo Mestre.  [7] p. 138

 

De a Bíblia de Jerusalém:

A validade da Lei (Torah) mosaica é afirmada (5,17-20), mas seu desenvolvimento pelos fariseus é rejeitado em favor de sua interpretação por Jesus, que insiste sobretudo nos preceitos éticos, no Decálogo e nos grandes mandamento de amor a Deus e ao próximo, e que fala de outros assuntos, à medida que eles revestem aspecto moral.      

(...) Todo o evangelho é emoldurado pelo formulário segundo o qual Deus está unido com seu povo por meio de Jesus Cristo (1,23 e 28,18-20). Os rejeitados pelo antigo Israel (21,31-32), unidos aos pagãos convertidos, tornam-se de novo o povo de Deus (21,43). Compreendemos então que este evangelho tão completo e tão bem organizado, redigido em uma língua menos saborosa, porém mais correta que a de Marcos, tenha sido recebido e utilizado pela Igreja nascente com notável predileção.  [5] p. 1694-1696

 

De Louis-Claude Fillion:

Jesus realizou, ponto por ponto, o ideal profético. Tal é o pensamento fundamental em que Mateus insiste com vigor extraordinário. Seu propósito era destacar o plano, o desígnio do próprio Deus. Não de uma simples acomodação, mas de um rigoroso cumprimento.     

Marcos e Lucas (mesmo não escrevendo diretamente para os judeus, como o primeiro evangelista) também provaram com passagens retiradas dos distintos livros do Antigo Testamento que Jesus é verdadeiramente o Messias prometido.

João empregou a fórmula de Mateus, apoiando continuamente sua narração nas profecias.

O Antigo Testamento também forneceu aos outros Apóstolos e discípulos do Salvador o substrato dos seus discursos e das suas epístolas; como Pedro, que destacou o cumprimento literal e perfeito das profecias messiânicas por parte do seu Mestre. Depois de Paulo ter citado Joel (At 2.16-21), Davi (At 2.25-28), Moisés (At 3.22-23) e Isaías, resumiu seu pensamento: todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias. Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra (At 3.24-25).  [8] p. 226

 

De Allan Kardec:

O Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu, com uma grande majestade, cercado de seus anjos e ao som de trombetas, lhes parecia bem mais imponente do que um ser investido somente de um poder moral. Também os judeus, que esperavam no Messias um rei da Terra, poderoso entre todos os reis, para colocar a sua nação no primeiro plano, e reconstruir o trono de David e de Salomão, não gostariam de reconhecê-lo no humilde filho de carpinteiro, sem autoridade material.

Entretanto, esse pobre proletário da Judeia tornou-se o grande entre os grandes; conquistou para a sua soberania mais reinos do que os mais poderosos potentados; somente com a sua palavra e alguns miseráveis pescadores, revolucionou o mundo, e é a ele que os judeus deverão a sua reabilitação. Ele estava, pois, na verdade quando, nesta pergunta de Pilatos: “Sois rei?” ele respondeu: “Vós o dizes.” [9]

 

 

 

A ESCOLHA DE ISRAEL

 

No reino de Israel sucederam-se as tribos e os enviados do Senhor.

 

Todos os seus caminhos no mundo estão cheios de vozes proféticas e consoladoras, acerca dAquele que ao mundo viria para ser glorificado como o Cordeiro de Deus.

 

A cada século renovam-se as profecias e cada templo espera a palavra de ordem dos Céus, através do Salvador do Mundo. Os doutores da Lei, no templo de Jerusalém, confabulam, respeitosos, sobre o Divino Missionário; na sua vaidade orgulhosa esperavam-no no seu carro vitorioso, para proclamar a todas as gentes a superioridade de Israel e operar todos os milagres e prodígios.

 

E, recordando esses apontamentos da história, somos naturalmente

levados a perguntar o porque da preferência de Jesus pela árvore de David, para levar a efeito as suas divinas lições à Humanidade; mas a própria lógica nos faz reconhecer que, de todos os povos de então, sendo Israel o mais crente, era também o mais necessitado, dada a sua vaidade exclusivista e pretensiosa "Muito se pedirá de quem muito haja recebido", e os israelitas haviam conquistado muito, do Alto, em matéria de fé, sendo justo que se lhes exigisse um grau correspondente de compreensão, em matéria de humildade e de amor.

 

A INCOMPREENSÃO DO JUDAÍSMO

 

A verdade, porém, é que Jesus, chegando ao mundo, não foi absolutamente entendido pelo povo judeu. Os sacerdotes não esperavam que o Redentor procurasse a hora mais escura da noite para surgir na paisagem terrestre. Segundo a sua concepção, o Senhor deveria chegar no carro magnificente de suas glórias divinas, trazido do Céu à Terra pela legião dos seus Tronos e Anjos; deveria humilhar todos os reis do mundo, conferindo a Israel o cetro supremo na direção de todos os povos do planeta; deveria operar todos os prodígios, ofuscando a glória dos Césares. E, no entanto, o Cristo surgira entre os animais humildes da manjedoura; apresentava-se como filho de um carpinteiro e, no cumprimento de sua gloriosa missão de amor e de humildade, protegia as prostitutas, confundia-se com os pobres e com os humilhados, visitava as casas suspeitas para de Iá arrancar os seus auxiliares e seguidores; seus companheiros prediletos eram os pescadores ignorantes e humildes, dos quais fazia apóstolos bem-amados.

 

Abandonando os templos da Lei, era frequentemente encontrado ao longo do Tiberíades, em cujas margens pregava aos simples a fraternidade e o amor, a sabedoria e a humildade. O judaísmo, saturado de orgulho, não conseguiu compreender a ação do celeste emissário. Apesar da crença fervorosa e sincera, Israel não sabia que toda a salvação tem de começar no íntimo de cada um e, cumprindo as profecias de seus próprios filhos, conduziu aos martírios da cruz o divino Cordeiro.  [10] p. 69-71

 

 

 

 

                     Silvia Helena Visnadi Pessenda        

sivipessenda@uol.com.br

 

 

 

Referências

 

[1] BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. (literatura não-espírita)

 

[2] DICIONÁRIO HOUAISS. Disponível na Internet em: https://houaiss.uol.com.br/pub/apps/www/v3-3/html/index.php#2 - acessado em 19.06.2018 (literatura não-espírita)

 

[3] PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Publicação da Revista Semanal. Rio de Janeiro. 1964.  Volume 1. Disponível na Internet em: http://bvespirita.com/Livros-C.html, acessado em 26.05.2018

 

[4] CROSSAN, John Dominic. As duas vozes mais antigas da tradição de Jesus. In: CHEVITARESE, André L.; CORNELLI, Gabrielle (Org.). A descoberta do Jesus Histórico. 1. ed. São Paulo: Paulinas, 2009. (literatura não-espírita)

 

[5] BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. (literatura não-espírita)

 

[6] DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

[7] MOURA, Marta Antunes de Oliveira (Org.). Estudo aprofundado da doutrina espírita: cristianismo de espiritismo. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do espiritismo/organizado por Marta Antunes de Oliveira Moura. 1. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2015. Volume 1: Cristianismo e Espiritismo.

 

[8] FILLION, Louis-Claude. Enciclopédia da vida de Jesus. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2008. (literatura não-espírita)

 

[9] KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 8. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Cap. 27. Item 54. p. 346.

 

[10] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). A caminho da luz: história da civilização à luz do espiritismo. 29. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002. Cap.VII.

 

 

MISSÃO VIVOS. Disponível na Internet em: http://vivos.com.br/mateus-marcos/ - acessado em 19.06.2018 (literatura não-espírita)

 

Bispo Alexander (Mileant). Traduzido por Suzanna e Tatiana Boyko. Disponível na Internet em: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/bible6_p.htm - acessado em 19.06.2018 (literatura não-espírita)

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