"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Prece - sem rituais ou formalismos

Para os espíritas, a prece necessita possuir rituais e formalismos? Numa oração, o que mais prevalece, a repetição de palavras decoradas ou os sentimentos e os pensamentos daquele que a pratica? Qual foi o ensinamento de Jesus quanto à melhor atitude a ser adotada no momento da prece?

 

         Para os espíritas, a prece não carece de rituais e formalismos, e, para embasar tal afirmação, consultemos algumas questões de O LIVRO DOS ESPÍRITOS:

 

                  - Questão 649: “Em que consiste a adoração?”

         Resposta: “É a elevação do pensamento a Deus. Pela adoração a alma se aproxima Dele.”

        

         - Questão 653: “A adoração tem necessidade de manifestações exteriores?”

         Resposta: “A verdadeira adoração está no coração. Em todas as vossas ações, imaginai sempre que um senhor vos observa.”

 

            - Questão 654: “Deus dá preferência àqueles que o adoram de tal ou tal maneira?”

         Resposta: “Deus prefere aqueles que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, àqueles que creem honrá-lo por meio de cerimônias que não os tornam melhores para seus semelhantes.

            (...) Não pergunteis, pois, se há uma forma de adoração mais conveniente, porque isso seria perguntar se é mais agradável a Deus ser adorado em um idioma que em outro. Eu vos digo ainda uma vez: os cânticos não chegam a Ele, senão pela porta do coração.”

        

         - Questão 658: “A prece é agradável a Deus?”

         Resposta: “A prece é sempre agradável a Deus quando é ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para Ele, e a prece do coração é preferível à que se pode ler, por bela que seja, se a lês mais com os lábios que com o pensamento. A prece é agradável a Deus quando ela é dita com fé, fervor e sinceridade.”

        

         - Questão 660: “A prece torna o homem melhor?”

         Resposta: “Sim, porque aquele que ora com fervor e confiança é mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia os bons Espíritos para o assistir. É um socorro que não é jamais recusado, quando pedido com sinceridade.” [1]

 

         Na Doutrina Espírita, o ato de orar é alitúrgico, ou seja, destituído de todo e qualquer formalismo. A prece caracteriza-se, portanto, por uma experiência única, individual, eminentemente íntima e espiritual, na qual o que prevalece são apenas os sentimentos e os pensamentos daquele que a pratica.

         Assim sendo, as atitudes e as posições exteriores, como, por exemplo, ajoelhar, colocar a mão na testa, baixar a cabeça, fazer o sinal da cruz, descruzar as pernas, e as fórmulas e rituais são procedimentos totalmente dispensáveis, porque se a prece é “um ato de se elevar a Deus e de conversar com Ele”, tudo nesse intercâmbio deverá ter a marca da espiritualidade, da espontaneidade, da sinceridade e da seriedade de propósitos. Para que ela possa atingir seus objetivos, deve ela traduzir, única e tão somente, o que o indivíduo está sentindo, pensando e almejando.        

         De fato, o sentimento com que é realizada é o fator de maior preponderância, conforme o entendimento do Espírito André Luiz:

 

         A oração, acima de tudo, é sentimento.

            Prevenir-se contra a afetação e o exibicionismo ao proferir essa ou aquela prece, adotando concisão e espontaneidade em todas elas, para que não se façam veículo de intenções especiosas.

            Fervor d’alma, luz na prece. [2]

        

         Podemos afirmar que o ensinamento proporcionado por Jesus, quanto à melhor atitude a ser adotada no momento da oração, segue essa mesma linha de raciocínio: 

 

         E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.

            Tu, porém, quando orardes, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

            E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.

            Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. (Mt 6:5-8) [3]

 

         No entanto, a prece é um recurso espiritual ainda pouco compreendido e explorado.

         Sua ação está fundamentada no vigor da vontade e da confiança, da fé, de quem a realiza, tendo em vista que seus efeitos não acontecem de fora para dentro, mas, em sentido inverso, porque a oração ativa o potencial existente no próprio indivíduo, para que ele mesmo atraia, por sua vez, forças e energias ainda mais potentes, como, por exemplo, as que vêm dos Espíritos Superiores e de Deus.

 

            A prece não é movimento mecânico de lábios, nem disco de fácil repetição no aparelho da mente. É vibração, energia, poder. A criatura que ora, mobilizando as próprias forças, realiza trabalhos de inexprimível significação. Semelhante estado psíquico descortina forças ignoradas, revela a nossa origem divina e coloca-nos em contato com as fontes superiores.

            (...) Toda prece elevada é manancial de magnetismo criador e vivificante e toda criatura que cultiva a oração, com o devido equilíbrio do sentimento, transforma-se, gradativamente, em foco irradiante de energias da Divindade. [4]

        

 

MANEIRA DE ORAR

22. O primeiro dever de toda criatura humana, o primeiro ato que deve assinalar-lhe o retorno à vida ativa de cada dia, é a prece. Quase todos vós orais, mas quão poucos sabem orar! Que importa ao Senhor as frases que ligais, maquinalmente, umas às outras, porque disso tendes hábito; é um dever que vos impondes e, como todo dever, vos pesa.

A prece do cristão, do Espírita, de qualquer culto que seja (...) deve se elevar aos pés da majestade divina com humildade, com profundidade, num arrebatamento de gratidão por todos os benefícios concedidos até esse dia: pela noite que se escoou e durante a qual vos foi permitido, embora inconscientemente, retornar junto aos vossos amigos, de vossos guias, para haurir, ao seu contato, mais força e perseverança. Ela deve se elevar humilde aos pés do Senhor, para lhe recomendar vossa fraqueza, pedir seu apoio, sua indulgência, sua misericórdia. Deve ser profunda, porque é vossa alma quem deve se elevar até o Criador, que deve se transfigurar como Jesus no Tabor, e tornar-se alva e irradiante de esperança e de amor.

Vossa prece deve encerrar o pedido das graças de que tendes necessidade, mas uma necessidade real. Inútil, pois, pedir ao Senhor abreviar suas provas, vos dar as alegrias e a riqueza; pedi-Lhe para vos conceder os bens mais preciosos da paciência, da resignação e da fé. Não digais, como ocorre a muitos entre vós: ‘Não vale a pena orar, uma vez que Deus não me atende’. Que pedis a Deus na maioria das vezes? Frequentemente, pensastes em lhe pedir o vosso melhoramento moral? Oh! não, muito pouco; mas imaginais entes de lhe pedir o sucesso nos vossos empreendimentos terrestres, e exclamastes: ‘Deus não se ocupa conosco; se disso se ocupasse, não haveria tantas injustiças.’ Insensatos! Ingratos! Se descêsseis ao fundo da vossa consciência, encontraríeis, quase sempre, em vós mesmos o ponto de partida dos males dos quais vos lamentais. Pedi, pois, antes de todas as coisas, o vosso progresso, e vereis que torrente de graças e de consolações se derramará sobre vós. [5]

 

 

 

No culto à prece

“E tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos e todos ficaram cheios do Espírito Santo.” (Atos 4:31)

 

Todos lançamos, em torno de nós, forças criativas ou destrutivas, agradáveis ou desagradáveis ao círculo pessoal em que nos movimentamos.

A árvore alcança-nos com a matéria sutil das próprias emanações.

A aranha respira no centro das próprias teias.

A abelha pode viajar intensivamente, mas não descansa e não ser nos compartimentos da própria colméia.

Assim também o homem vive no seio das criações mentais a que dá origem.

Nossos pensamentos são paredes em que nos enclausuramos ou asas com que progredimos na ascese.

Como pensas, viverás.

Nossa vida íntima – nosso lugar.

A fim de que não perturbemos as leis do Universo, a Natureza somente nos concede as bênçãos da vida, de conformidade com as nossas concepções.

Recolhe-te e enxergarás o limite de tudo o que te cerca.

Expande-te e encontrarás o infinito de tudo o que existe.

Para que nos elevemos, com todos os elementos de nossa órbita, não reconhecemos outro recurso além da oração, que pede luz, amor e verdade.

A prece, traduzindo aspiração ardente de subida espiritual, através do conhecimento e da virtude, é a força que ilumina o ideal e santifica o trabalho.

Narram os Atos que, havendo os apóstolos orado, tremeu o lugar em que se encontravam e ficaram cheios do Espírito Santo: iluminou-se-lhes o anseio de fraternidade, engrandeceram-se-lhes as mentes congregadas em propósitos superiores e a energia santificadora felicitou-lhes o espírito.

Não olvides, pois, que o culto à prece é marcha decisiva. A oração renovar-te-á para a obra do Senhor, dia a dia, sem que tu mesmo possas perceber. [6]

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

        

REFERÊNCIAS  

 

 

[1] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

 

[2] ANDRÉ LUIZ (espírito); VIEIRA, Waldo (psicografado por). Conduta espírita. 21. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1998. Cap.26.

 

[3] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[4] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Missionários da luz. 31. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999. Cap. 6. p. 59-63.

 

[5] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. 27. Item 22.

 

[6] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Fonte viva. 12. ed.  Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 149.