"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Deus - seu incondicional amor

Deus nos castiga? Como é possível constatar se Ele realmente nos ama, e de forma incondicional, principalmente quando erramos? Por que ainda determinadas crenças religiosas pregam que Deus até consegue ser misericordioso em determinada situações, mas irado e vingativo em outras? A lei de ação e reação, um dos postulados espíritas, trata-se de uma represália divina? Existe algum ensinamento de Jesus quanto a esse assunto?

 

          A Epístola aos Filipenses (4:11-13) traz a seguinte citação do Apóstolo Paulo:

 

            Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência, tanto da fartura como da fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece. [1]

 

         Qual era o real motivo dessa sua condição íntima? Quem tanto o fortalecia?

          Sua história é a de uma criatura que, arduamente, se empenhou na divulgação dos ensinos de Jesus. Mas, antes de sua conversão ao cristianismo nascente, Paulo era um doutor da lei, chamado Saulo de Tarso. E esse fariseu zeloso, de temperamento impulsivo e enérgico, não admitia qualquer desobediência à lei mosaica. Obviamente que, em sua maneira de ser e crer, tinha Jesus na conta de um mistificador indigno de qualquer consideração, ainda mais por ter morrido entre dois ladrões, e de uma ameaça à tradição judaica. Sendo assim, segundo o que nos aponta o livro Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, passou a empreender várias perseguições aos seguidores da nova crença.

         Entretanto, no momento de seu encontro com o Cristo na estrada de Damasco, Saulo de Tarso curvou-se diante da grandeza espiritual de uma criatura, cuja autoridade moral era impossível de ser questionada ou contestada. Com isso, de perseguidor ferrenho, Saulo passou a considerar-se um dos maiores devedores Daquele que “desceu dos céus” para pedir-lhe que não mais o perseguisse.

         Na obra PAULO E ESTEVÃO, o Espírito Emmanuel conta, de forma romanceada, maiores detalhes sobre a vida desse apóstolo. Num determinado trecho dessa história, temos as seguintes palavras de Paulo (Saulo é o seu nome hebraico, e significa “pedido de Deus”; o nome Paulo é de origem grega e romana) [1], que bem demonstram a admiração que alimentava em seu coração:

 

            Jesus é o Messias eterno! Depus minha alma em suas mãos!... Penitencio-me do meu caminho!... [2]

            Serei dele eternamente. Sua misericórdia suprirá minhas fraquezas, compadecer-se-á de minhas feridas, enviará auxílio à miséria de minh’alma pecadora, para que a lama do meu espírito se converta em ouro do seu amor. [3]

            Por mim nada posso temer. Se Jesus me restituiu a luz dos olhos, não deixará de iluminar os meus caminhos.  [4]

 

         Depois de estudar a vida e os ensinamentos de Jesus, Paulo aprendeu a conhecer e a sentir um outro Deus. Não mais a figura de um Senhor soberano e inflexível como o judaísmo pregava, mas a imagem de um pai que ama incondicionalmente seus filhos. Tanto que na Epístola aos Colossenses (1:15), assim se expressa: “Este (Jesus) é a imagem do Deus Invisível.” E, na Segunda Epístola aos Coríntios (5:19), também afirma: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens suas transgressões”. 

         Sendo assim, Paulo percebeu que o Deus ensinado por Jesus sabia avaliar a sinceridade de seu coração, diante da recente mudança, e lhe daria novas oportunidades para reparar os erros praticados até então, apesar de toda a sua falibilidade e da miséria que ainda carregava em sua culpada consciência. Constatou, nas lições do Cristo, a manifestação de um amor que até então a humanidade desconhecia. Para ele, Jesus foi uma pessoa doce e amável, que veio ao mundo trazer uma mensagem de consolo, de confiança e de maior responsabilidade perante a vida. Ao fazer do Cristo o seu mestre e guia, transformou-se no seu mais devotado apóstolo, sendo considerado, historicamente, como o próprio fundador do cristianismo, em razão das pregações que efetuou fora dos domínios judaicos.

         O Espírito Emmanuel, em homenagem a toda essa determinação e dedicação, presta a seguinte deferência a Paulo:

 

            Queremos recordar que Paulo recebeu a dádiva santa da visão gloriosa do Mestre, às portas de Damasco, mas não podemos esquecer a declaração de Jesus relativa ao sofrimento que o aguardava,  por amor ao seu nome.

            Certo é que o inolvidável tecelão trazia o seu ministé­rio divino; mas, quem estará no mundo sem um ministério de Deus? Muita gente dirá que desconhece a própria tarefa, que é insciente a tal respeito, mas nós poderemos responder que, além da ignorância, há desatenção e muito capricho pernicioso. Os mais exigentes advertirão que Paulo recebeu um apelo direto; mas, na verdade, todos os homens menos rudes têm a sua convocação pes­soal ao serviço do Cristo. As formas podem variar, mas a essência ao apelo é sempre a mesma. O convite ao ministério chega, às vezes, de maneira sutil, inesperadamente; a maioria, porém, resiste ao chamado generoso do Senhor. Ora, Jesus não é um mestre de violências e se a figura de Paulo avulta muito mais aos nossos olhos, é que ele ouviu, negou-se a si mesmo, arrependeu-se, tomou a cruz e seguiu o Cristo até o fim de suas tarefas materiais. Entre perseguições, enfermidades, ápodos, zombarias, desilusões, deserções, pedradas, açoites e encarceramentos, Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir na encruzilhada de sua vida. Foi muito mais que um predestinado; foi um realizador que trabalhou diariamente para a luz.

            O Mestre chama-o, da sua esfera de claridades imor­tais. Paulo tateia na treva das experiências humanas e responde: — Senhor, que queres que eu faça?

            Entre ele e Jesus havia um abismo, que o apóstolo soube transpor em decênios de luta redentora e constante. [5]

 

****

 

         Uma das lições que mais demonstra o amor incondicional de Deus (Lc 15:1-7) é quando Jesus, ao ser criticado pelos fariseus por estar sempre rodeado de pecadores, lhes responde contando a parábola da ovelha perdida: um pastor, ao possuir cem (100) ovelhas, abandona as noventa e nove (99) porque uma (01) havia se perdido; e quando a encontra, carrega-a ao ombro cheio de felicidade. E, assim, diz a eles: “Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento”. [1]

         E, continuando com suas instruções sobre o incondicional amor divino, conta a parábola do filho pródigo (Lc 15:11-32), ensinando, por analogia, que Deus está sempre disposto a receber em Seus braços um filho que Lhe volta. No entanto, a ênfase dessa narrativa encontra-se justamente em seu final, quando o outro filho, indignado pela receptividade e perdão do pai, fez com que este assim lhe respondesse: “Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e alegrássemos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado”. [1]

         Da leitura dos quatro (4) evangelhos, podemos afirmar que as lições do Cristo nunca tiveram por propósito invalidar os mandamentos de Moisés e as palavras dos profetas. Tiveram, sim, por principal escopo, demonstrar aos homens um jeito mais amoroso e agradável de se viver, uma forma mais confiante de se relacionar com Deus, bem como uma maneira mais consciente de se obedecer às Suas leis, agora não mais pelo temor ou medo, mas pelo respeito ao pai que Deus representa.

         As palavras de Jesus foram totalmente estruturadas no amor ideal e, como primeiro mandamento, baseou-se no “amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força”.  Este foi também um mandamento de Moisés (Dt 6:5),  o qual Jesus não revogou, mas o complementou com um segundo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12:30-31)

         Todavia, como consequência das várias distorções e manipulações que os ensinos de Jesus sofreram, no decorrer desses dois milênios, muito da crença na sabedoria, na justiça e no amor incondicional de Deus ficou um tanto que confusa, e até contraditória, para um número bastante grande de pessoas.

         Muitos indivíduos ainda acreditam que seus problemas e sofrimentos são, puramente, castigos divinos! Outros, ao conhecerem superficialmente o postulado espírita da lei de causa e efeito – ou ação e reação –, compreendem-no também como sendo uma represália “dos céus”. 

         No entanto, cada um de nós tem um modo bastante peculiar de entender e de se relacionar com Deus, e que costuma ser influenciado por nossas crenças mais íntimas e pelas experiências que a vida nos proporciona com o decorrer do tempo, principalmente quando estamos vivenciando situações difíceis, momento em que não será difícil chegarmos a questionar o seguinte: “Se Deus está em toda parte e tem tanto poder, será que não sabe quando é que preciso Dele? Se tem tanto carinho por mim, por que permite que coisas ruins me aconteçam? Será que Ele não castiga, mesmo?”

         O nosso maior mal é esperarmos por respostas prontas e imediatas, e quando não as temos no tempo e da maneira que desejamos, passamos a desacreditar da Providência Divina. E esse ceticismo faz com que nos desliguemos Dele, passando a supor que, se Deus verdadeiramente existe, está somente disponível para algumas pessoas privilegiadas, das quais nós, com certeza, não fazemos parte!

         Muitos de nós, em nossa imatura vontade de querer acreditar Nele, estamos como que sempre a Lhe dizer: “Dê-me provas e eu acreditarei em Você”. Mas o que Jesus nos ensinou foi justamente o inverso, como se Ele pudesse nos dizer: “Acredite em mim e Eu lhe darei provas”.

         O Cristo, para ensinar que a confiança deveria ser um dos aspectos espirituais mais relevantes de nossa personalidade, quando realizava suas curas, chegava a dizer à pessoa beneficiada: “a tua fé te curou!”

         No entanto, há um requisito essencial para se crer nesse Pai, cujo amor é incondicional: é o profundo desejo de tentar compreender a que propósitos Sua sabedoria está nos conduzindo. Às vezes, diante de tantas dificuldades e contradições, tal entendimento não é tão fácil de se conquistar. Mas, é no momento dessa busca, que a razão necessita dar uma trégua em seus intermináveis questionamentos, para que a emoção possa se expressar numa troca de confidências com Ele, através da elevação da prece. Nesse sentido, o Espírito Emmanuel argumenta:

        

            Necessitamos, acima de tudo, confiar sinceramente na Sabedoria e na Bondade do Altíssimo, compreendendo que é indispensável perseverar com alguém ou com alguma coisa que nos ajude e edifique.

            Os inconstantes permanecem figurados na onda do mar, absorvida pelo vento e atirada de uma para outra parte.

            Quando servires ou quando aguardares as bênçãos do Alto, não te deixes conduzir pela inquietude doentia. O Pai dispõe de inúmeros instrumentos para administrar o bem e é sempre o mesmo Senhor paternal, através de todos eles. A dádiva chegará, mas depende de ti, da maneira de procederes na luta construtiva, persistindo ou não na confiança, sem a qual o Divino Poder encontra obstáculos naturais de se exprimir em teu caminho. [6]

 

         Como será possível à Providência Divina se manifestar em nossa vida, se não acreditarmos ou mesmo não confiarmos nessa possibilidade?

         O apóstolo Paulo, na Epístola aos Romanos (8:28), chega a afirmar: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”.  Conforme já pudemos comentar, disse ele, também, que aprendera a viver feliz e contente em toda e qualquer situação, porque tudo podia naquele que o fortalecia. Essa é a condição íntima de quem sabe confiar na Sabedoria Divina. E quando igualmente conquistamos essa confiança, muito embora nossos desafios e dificuldades, uma bem estruturada serenidade nos permite constatar que algo muito maior está acontecendo em nós e através de nós.

 

 

Desenvolva a sua alegria

Não será pelo fato de viver num mundo demarcado por provanças imensas que você cortará relações com a alegria.

Não será porque vive situações expiatórias, que lhe dão ensejo de restabelecer seu equilíbrio perante as leis supremas da vida, que você se dará ao cultivo da tristeza ou do negativismo.

Cada vez que você procura justificar suas atitudes soturnas e seus comportamentos mórbidos, negativos, lamentáveis, com o argumento de ser o nosso planeta muito inferior, estará patenteando o seu interesse em culpar as leis de Deus pelas desarmonias que você insiste em manter a sua volta, sem a devida coragem de lançar-se à busca do necessário equilíbrio.

Caso se detenha um pouco a observar, você verá que, ao lado da sua dificuldade, Deus sempre lhe apresenta caminhos de soluções e apoios, e entenderá o motivo pelo qual deverá cultivar as sementes da alegria que o Pai depositou em todos nós.

Se no decorrer do dia você se chocou com cenas patéticas ou com palavras ásperas que alguém lhe dirigiu, pare e medite que, muito antes de chorar e sofrer sob o travo da decepção, você tem bons olhos e ouvidos que lhe dão a honra de poder ver e ouvir tudo o que se passa a sua volta.

Se em dada ocasião você se amargura com a enfermidade que lhe prende ao leito por algum tempo, impedindo o seu movimento para o que gostaria de fazer, alegre-se porque, apesar de momentaneamente impedido, você pode pensar e encontrar na sua lucidez a chance de planejar o futuro, elaborando novos recursos, novos rumos, na busca da cura verdadeira.

Se você vive e tortura os filhos ingratos ou fanfarrões, ou de afetos enfermados por vícios perturbadores, medite na oportunidade que Deus lhe concedeu de amá-los, de socorrê-los até aos limites das suas forças, desincumbindo-se de sérios compromissos fixados na retaguarda. Pense, ainda, que essas almas são seus filhos ou parentes somente pelos laços carnais, fazendo maior ou menor sintonia com você desde pretérito mais ou menos distante.  Contudo, verdadeiramente, todos são filhos de Deus como você mesmo é. Reflita no fato de que embora lhe caiba orientá-los, aconselhá-los, explicar o bem para que o vejam, somente ao Pai Criador cabe o juízo quanto às realidades de cada um dos Seus filhos, que se acham, por enquanto, sob seus cuidados afetivos. Em última análise, você só poderá fazer em favor dos seus queridos afetos aquilo que eles se permitam receber de você. Quanto ao mais, cumprida a sua parte, você deve tudo entregar ao Senhor.

Se alguém não o cumprimentou como você gostaria que o fizesse, não perca o espírito desportivo e admita que a pessoa pode não tê-loe visto e que, por outro lado, cada pessoa carrega suas enfermidades, seus problemas, havendo dias melhores e dias piores em suas vidas. Alegre-se por exercitar o entendimento fraterno a respeito dos outros.

Se alguém se deu à ação ingrata de atirar-lhe calúnia ou más palavras, não perca seu precioso tempo em revides ou em sofrimentos. Chegará o tempo de todos os acertos, sob o olhar do Criador.  Cultive, tanto quanto lhe seja possível, o hábito salutar da alegria por não ser você quem espalha desavenças e inverdades que semeiam fealdade em torno da vida terrena.

A alegria é um estado íntimo de integração consciente com as Fontes Divinas de energia.

Alegrar-se é procurar cumprir cada compromisso com boa disposição e entusiasmo. Seja na família ou nos círculos das amizades, seja na área profissional ou com você mesmo, empenhe-se no desenvolvimento da alegria, superando com afinco todas as lutas, todas as dificuldades com que se depare na caminhada terrena.

Evite fazer-se uma pessoa especialista em palavras ácidas, de rompantes inamistosos, de gritarias incontroladas, de lamentações repetitivas, de mau humor, enfim. Vai lutando, passo a passo, mas firme e fielmente, até conseguir transformar-se na pessoa vitoriosa sobre si mesma, alegre, descontraída, por saber que, embora nos caiba no mundo o enfrentamento de múltiplas pelejas e de incontáveis apertos n’alma, é em Deus que devemos depositar os conteúdos de nossas tristezas e das nossas alegrias, a fim de que Ele tudo toque e ilumine, abençoando a nossa alegria em processo de crescimento até alcançarmos a verdadeira felicidade. [7]

 

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

 

[1] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[2] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Paulo e Estevão. 7. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 1 da segunda parte. p. 211.

 

[3] Idem. p. 212.

 

[4] Idem. p. 212.

 

[5] idem. Introdução intitulada “Breve notícia”. p. 8-9.

 

[6] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Pão nosso. 17. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 22.

 

[7] JOANES (espírito); TEIXEIRA, José Raul (psicografado por). Para uso diário. 2. ed. Niterói, RJ: Fráter, 2000. Cap. 6.

 

 

Literatura não-espírita

 

VANZANT, Iyanla. Um dia minha alma se abriu por inteiro: 40 dias e 40 noites em busca de liberdade e plenitude. Tradução de Claudia Costa Guimarães. 3. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.