"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Artigos

Perfeição versus perfeccionismo

É-nos possível ser tão perfeitos quanto Deus? O que é a perfeição? A perfeição é perfeccionista?

 

No Evangelho de Mateus (5:17-42), Jesus ensina sobre o homicídio, a ira contra o próximo – e a consequente necessidade de reconciliação com ele; o adultério – frisando que este também ocorre por meio do pensamento;  o falso juramento e a inutilidade da vingança. Mas quando fala do amor ao próximo (vv. 43-48), ressalta: “Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelo que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste (ou seja, para que vos torneis semelhantes a Deus), porque ele faz nascer o seu sol sobre os maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos (aqui, Jesus enfatiza que Deus não faz distinção entre as pessoas. Sejam elas merecedoras ou não, todas recebem Dele os mesmos recursos e oportunidades para que conquistem o próprio bem estar. Todas recebem o Seu amor incondicional). (...) Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste.” [1]

Nesse trecho do Evangelho, depois de enfocar determinados aspectos conflitantes das relações interpessoais, o Cristo nos apresenta Deus como um modelo, um parâmetro a ser seguido em nossa busca de seu aprimoramento íntimo, de modo a conseguirmos ser tão justos, sábios e superiores em nossos relacionamentos, assim como Ele é na sua relação para conosco.

E no que consiste tal perfeição?

Em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, capítulo XVII, intitulado ‘Sede Perfeitos’, Kardec deixa registrado que “a essência da perfeição é a caridade em sua mais larga acepção, porque ela implica a prática de todas as outras virtudes.” [2]

Mas, se consultarmos as definições da palavra perfeição, além de “pureza, exatidão, correção”, também encontraremos: “O máximo de virtude ou bondade: perfeição de caráter”! [3]

Sendo assim, podemos concluir que Jesus, ao fazer uma associação da perfeição com o amor – inclusive aos inimigos –, desejava caracterizá-la como sendo a benevolência extremada e, por isso mesmo, incondicional. E esse conceito de incondicionalidade é essencial no entendimento do que seja o perfeccionismo.

Ainda do mesmo capítulo de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, temos as seguintes características do homem de bem:

 

O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Se interroga a consciência sobre os seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa lei; se não fez o mal e se fez  todo o bem que podia; se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil; se ninguém tem o que reclamar dele; enfim, se fez a outrem tudo o que quereria que se fizesse para com ele.

Tem fé em Deus, em sua bondade, em sua justiça e em sua sabedoria; sabe que nada ocorre sem Sua permissão e se submete, em todas as coisas, à Sua vontade.

Tem fé no futuro; por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

(...) O homem, possuído de sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperança de recompensa, retribui o mal com o bem (...).

E encontra satisfação nos benefícios que derrama, nos serviços que presta, nos felizes que faz, nas lágrimas que seca, nas consolações que dá aos aflitos. Seu primeiro movimento é de penar nos outros antes de pensar em si, de procurar o interesse dos outros antes do seu próprio

(...) Em todas as circunstâncias, a caridade é seu guia.

(...) Não tem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança.

(...) É indulgente para com as fraquezas alheias, porque sabe que ele mesmo tem necessidade de indulgência.

(...) Não se compraz em procurar os defeitos alheios, nem em colocá-los em evidência. Se a necessidade a isso o obriga, procura sempre o bem que pode atenuar o mal.

Estuda as próprias imperfeições e trabalha, sem cessar, em combatê-las.

(...) Não se envaidece nem com a fortuna, nem com as vantagens pessoais, porque sabe que tudo o que lhe foi dado, pode lhe ser retirado.

(...) O homem de bem, enfim, respeita em seus semelhantes todos os direitos dados pelas leis da Natureza, como gostaria que os seus fossem respeitados.

Essa não é uma enumeração de todas as qualidades que distinguem o homem de bem, mas todo aquele que se esforce por possuí-las, está no caminho que conduz a todas as outras. [2]

 

Todavia, essas considerações – que trazem a idéia da perfeição como sendo algo decorrente da harmonia de todos os sentimentos, do saber absoluto, da vontade firme, do amor em sua mais ampla abrangência –, podem gerar, em nós, desconcertantes pensamentos e/ou sensações de dificuldade, de impossibilidade: “é muito difícil, senão impossível, ser tudo isso!”

E o porquê dessa reação? Porque ainda carregamos diversas imperfeições de caráter, vivenciando, em nosso dia a dia, situações em que:

·        somos individualistas, impulsivos e agressivos;

·        julgamos sem tolerância as pessoas que mais amamos ou rejeitamos aquelas outras que nos contrariam;

·        não conseguimos compreender ou aceitar a opinião alheia;

·        desejamos que, primeiramente, o “mundo” atenda as nossas necessidades, para somente depois pensarmos nas necessidades daqueles com os quais convivemos;

·        somos rápidos para reclamar e lentos para agradecer; além de

·        produzirmos uma infinidade de pensamentos pessimistas, que acabam por prejudicar a própria qualidade de vida.

Constatando tal realidade, o Espírito Hammed assim se expressa: “Nós achamos que deveríamos ser perfeitos, no entanto, somos apenas seres em desenvolvimento espiritual. Nós achamos que somos anormais, no entanto somos apenas criaturas vivenciando a normalidade da imperfeição humana.”  [4]

É característica da natureza humana cometer falhas com relativa frequência. Todos somos assim: mais erramos do que acertamos! No entanto, reconhecer a própria fragilidade e falibilidade não é sinal de fraqueza, de incompetência ou de impotência.

Conforme ensinamento constante da questão 776, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, fomos concebidos por Deus como seres potencialmente perfeitos. Somos, então, criaturas perfectíveis.

Assim sendo, dificuldades e aflições, conflitos e sofrimentos, dúvidas e incertezas não são situações imutáveis ou irreversíveis, porque nosso destino é a perfeição. Mas para alcançá-la, necessitamos aprender com as próprias imperfeições e efetuar importantes descobertas no silêncio de nós mesmos, através de um consciente trabalho de perseverança e constância.

O escritor espírita Martins Peralva registra:

 

A perfeição é o grande objetivo do Espírito e se processa, naturalmente, com a subida de vários degraus evolutivos.

Quem evolui, renova-se para o bem, transforma-se para melhor.  [5]

 

A perfeição consiste, básica e essencialmente, nas boas disposições de nosso coração.  “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste”.

****

Em decorrência de uma errônea concepção do que seja a perfeição, muitos a confundem com o perfeccionismo  que é a  tendência obsessivamente exagerada para atingir a perfeição na realização de alguma coisa.

E quais são as características comportamentais de um indivíduo perfeccionista? Seu retrato reúne e combina determinados traços psicológicos e sinais particulares, tais como:

·        compulsão de fazer as coisas com perfeição, não aceitando a normalidade de algumas limitações humanas. Assim, impõe-se realizar tarefas impecáveis, quando poderia fazê-las apenas com esmero;

·        obstinação pela ordem e pela limpeza. Ao invés de viver cada dia de forma mais leve, torna a vida cansativa em razão de suas metas inatingíveis. Ele é o maior inimigo da própria paz interior;

·        ansiedade de fazer ou resolver coisas de forma imediata. O que poderia executar em um dia, quer fazer em instantes. Faz várias coisas ao mesmo tempo, usando o perfeccionismo como uma forma de compensar a insegurança e a inquietação que o dominam perante diversos aspectos de sua realidade;

·        tendência a classificar tudo o que existe em extremos opostos: certo e errado, moral e imoral, tudo ou nada. Não carrega apenas o rótulo de “meticuloso”, mas também o de “disciplinador intransigente” ou de “reformador inflexível”. Entretanto, quanto mais alguém se aproxima da perfeição, menos rigoroso se torna para com os outros!;

·        considerar-se a única pessoa capaz de realizar bem as coisas;

·        estar sempre com a razão;

·        acreditar que seja um “herói” ou uma “super criatura”, não percebendo que também que pertence à raça humana. Naturalmente, possui dificuldades e pontos fracos, e, por isso mesmo, vivencia situações apropriadas às próprias forças;

·        trabalhar sem interrupção. O trabalho é o seu “lazer” preferido. O “obrigar-se” a realizar algo é o constrangimento a que frequentemente se impõe. Sendo assim, por apresentar enormes dificuldades em relaxar, está sempre preso às obrigações;

·        pavor de cometer erros. Às culpas é algo a que constantemente se entrega. Sua conduta é quase toda alicerçada em rígidas regras e normas sociais. Ninguém o repreende tão cruelmente quanto ele mesmo;

·        possuir enorme necessidade de considerações, elogios e manifestações da estima alheia. Encontra-se, constantemente, num enorme “esforço de ser o melhor”, para confirmar sua boa opinião sobre si mesmo. Com isso, vive competindo e comparando-se com os outros. Utiliza-se também das circunstâncias, não como um método de crescimento a ser cultivado na própria intimidade, mas para provar sua “perfeição”. No entanto, a necessidade de se sentir superior lhe traz um elevado dispêndio de energia emocional;

·        julgar-se superior, muito embora uma circunstancial inferioridade em relação a algumas pessoas. Com isso, nutre um desdém arrogante sobre os outros, em virtude de seus padrões morais e intelectuais, que considera os melhores;

·        desculpar-se ou justificar-se insistentemente pelos seus erros, somente quando os reconhece;

·        dramatizar problemas e conflitos; bem como

·        resistir a ideias e conceitos novos.

Com essa caracterização da criatura perfeccionista, podemos afirmar que esperar de nós mesmos e das outras pessoas a perfeição absoluta no modo de pensar, de sentir e de agir, trata-se de uma expectativa contraproducente.

Não foi isso o que Jesus ensinou, quando falou sobre a perfeição! Enfatizou que Deus não impõe condições para nos amar, pois Sua perfeição “faz nascer o seu sol sobre os maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”. Assim, a perfeição não é perfeccionista, porque ela representa a bondade no seu mais alto grau!

O perfeccionismo, sim, trata-se de uma imperfeição, pois nos coloca num estado tão grande de ansiedade, de inquietação e de cobranças internas, que fazem com que os erros se tornem muito mais frequentes. Quando não aceitamos a possibilidade da existência de falhas e limitações naturais de cada qual, o amor incondicional por nós mesmos e pelos outros – tão preconizado por Jesus – obviamente que não encontra terreno para se desenvolver.

O escritor espírita Joamar Zanolini Nazareth, com muita propriedade, afirma:

O Espiritismo é uma doutrina que nos coloca no dever de sempre caminhar. Não nos pede santidade para abraçar a tarefa educativa. Pede-nos apenas caminhar, e, a cada passo dado no rumo do progresso, surge o convite do trabalho dentro do que já conquistamos, abrindo oportunidades de adquirir as virtudes que ainda não trazemos na alma. O erro não está em ter imperfeições, mas em algemar-se à preguiça e não buscar melhorar-se.

(...) Conforme uma das mais belas asserções de Kardec: ‘Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações’ (EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cap XVII, item 4). [6]

 

 

Perfeição versus Perfeccionismo

 

As tendências ao perfeccionismo têm raízes profundas e escondidas revelando, às vezes, um grande medo indefinido e oculto. A diferença principal entre um indivíduo saudável e o perfeccionista é que o primeiro controla sua própria vida, enquanto que o segundo é controlado sistematicamente por sua compulsão pertinaz.

Trazemos como somatória de múltiplas existências, crenças negativas de que nosso valor é medido por nossos desempenhos bem sucedidos, e que os erros nos rebaixariam o merecimento como pessoa. Daí as emoções desconexas de medo, de desagrado e de punição. (...) O transtorno dos perfeccionistas é não se aceitarem como espíritos falíveis, não aceitando os outros também nessa mesma condição, tentando assim agradar e corresponder às expectativas de todos.

Às vezes os perfeccionistas podem até pensar, mas não admitem – “se eu fracassar, vão me criticar” –; em outras ocasiões, insistem em dizer que ‘não o são’ demonstrando, porém, o contrário, pois ficam profundamente descontrolados quando cometem algum erro.

Certas fixações pelo desempenho perfeito são necessidades de aprovação e carinho que nasceram durante a infância. “Se você não fizer tudo certinho, a mamãe e o papai não vão gostar mais de você”: são vozes do passado que ressoam até hoje na mente dos perfeccionista.

Esses distúrbios de comportamento levam, às vezes, os indivíduos a uma lentidão superlativa para fazerem as coisas e, por quererem fazer tudo com tantos detalhes e precisão, acabam sempre fazendo nada. Outros são conhecidos pelo nome de proteladores, ou seja, adiam sistematicamente a ação, por temerem o não desempenho perfeito ou, por exemplo, se começam a apontar o lápis levam objeto à destruição em alguns minutos, pela busca milimétrica da perfeição. Outros sintomas ou sinais mais comuns são aqueles que levam certas pessoas a colocarem as coisas simetricamente, não podendo ficar um centímetro fora do lugar e quanto mais verificam, mais querem checar e mais têm dúvidas.

Os perfeccionistas necessitam ser impecáveis, respondem a todas as perguntas, mesmo aquelas que não sabem corretamente e, por possuírem desordens psíquicas, buscam incessantemente controlar a ordem exterior, vigiando os comportamentos alheios como verdadeiros juízes da moral e dos costumes do próximo.

Por não admitirmos o erro, e por percebermos que o único fracasso legítimo é aquele com o qual nada aprendemos, é que os conceitos de perfeição doentia perturbam constantemente nossa zona mental. Portanto, o erro não deve ser considerado como perda definitiva, mas apenas uma experiência de aprendizagem.

“Sede pois, vós outros, perfeitos, como vosso Pai Celestial é perfeito” – disse-nos Jesus Cristo. Entretanto, não nos conclama com essa assertiva a que tomemos ‘ares’ de perfeição presunçosa, e sim a que nos esforcemos para um crescimento gradual, com o qual o processo da vida vai nos dando habilidades cada vez maiores e melhores.

Somos todos convocados pelo Mestre ao exercício do aperfeiçoamento, mas contemos com o tempo e a prática como fatores essenciais, e nunca com a perfeição como sendo ‘uma determinação martirizante e desgastante’, que faz a criatura dispender uma enorme carga energética para manter uma aparência irrepreensível.

Repensemos o texto cristão, refletindo se estamos buscando o crescimento rumo à perfeição, ou se representamos possuir uma santidade oca, que não suporta sequer o toque da menor contrariedade. [7]

 

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

[1] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[2] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. XIII: Sede perfeitos.

 

[3] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

 

[4] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Um modo de entender: uma nova forma de viver. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2004. Cap. 5.

 

[5] PERALVA, Martins. O pensamento de Emmanuel. 5. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1994. Cap. 8.

 

[6] NAZARETH, Joamar Zanolini. Um desafio chamado família: abordagem temática em linguagem simples segundo o pensamento espírita. 1. ed. Araguari, MG: Minas Editora, 1999. Cap. 29.

 

[7] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Renovando Atitudes. 2. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 1997. Cap. “Perfeição versus Perfeccionismo”.

 

 

CAMARGO, Jason de. Educação dos sentimentos. 5. ed. Porto Alegre: Letras de Luz, 2003.

 

HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). A imensidão dos sentidos. 3. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2000.

 

HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Os prazeres da alma. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2003.