"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Milagre

Milagres acontecem? Deus faz milagres? No que se assentam os fenômenos ditos "sobrenaturais"? Como a doutrina espírita os explica? Jesus produzia milagres? Com que intuito o Cristo produziu fenômenos inexplicáveis para sua época?

 

         Quando um determinado acontecimento nos provoca surpresa, como por exemplo, alguém passar no vestibular sem ter estudado “nadinha”, podemos pensar ou mesmo dizer a essa pessoa: “Que milagre!!!”

         Com isso, temos que o milagre diz respeito a um fato ou um acontecimento que nos provoca surpresa, admiração e até  certa dose de incredulidade, por tratar-se de algo inusitado, ou extraordinário e incomum.

         Mas, por influência de certas concepções religiosas, o milagre representa a indicação de uma participação divina na vida das pessoas e nos fenômenos da natureza. E, em razão desse entendimento, o milagre também se refere a um ato ou acontecimento inexplicável, caracterizado por uma alteração súbita e fora do comum das leis da natureza, no qual Deus manifesta Seu poder.

         O que dá grande relevância aos milagres é, justamente, essa sua origem sobrenatural e a impossibilidade de serem explicados.

         Ponderando sobre a atitude divina, Léon Denis (1846-1927), um dos principais continuadores do espiritismo após a morte de Allan Kardec, escreve: O milagre é uma postergação das leis eternas fixadas por Deus, obras que são da sua vontade, e seria pouco digno da suprema Potência exorbitar da sua própria natureza e variar em seus decretos. [1]

         Deus faz milagres? Em princípio, até poderia fazer, se verdadeiramente acreditarmos que para Ele tudo é possível.

         E por que faria, se Ele mesmo criou leis perfeitas? O fato é que tudo o que é perfeito não carece de modificação ou de aperfeiçoamento, pois tudo nele já está previsto e providenciado, sem nada a corrigir nem improvisar!

         No entanto, a explicação espírita para os milagres defende que, na maneira de agir de Deus, não existe o regime de exceção e de privilégios, nem de exclusão ou de derrogação de Suas leis. E esse ensino encontra-se, principalmente, na obra A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO, em seu capítulo. XIII, denominado “Caracteres dos milagres”.

         Nele, Allan Kardec leciona que os milagres desaparecem na proporção exata do avanço do conhecimento científico dos processos da natureza:

 

         Foram fecundos em milagres os séculos de ignorância, porque se considerava sobrenatural tudo aquilo cuja causa não se conhecia. À proporção que a Ciência revelou novas leis, o círculo do maravilhoso se foi restringindo; mas, como a Ciência ainda não explorara todo o vasto campo da Natureza, larga parte dele ficou reservada para o maravilhoso.

            (...) O Espiritismo, pois, vem, a seu turno, fazer o que cada ciência fez no seu advento: revelar novas leis e explicar, conseguintemente, os fenômenos compreendidos na alçada dessas leis.

            Esses fenômenos, é certo, se prendem à existência dos Espíritos e à intervenção deles no mundo material. [2]

 

         Antigamente, havia muitas coisas consideradas como maravilhosas ou sobrenaturais. Algumas delas nem eram fatos reais, mas apenas crendices ou superstições sem fundamento.

         Os indivíduos, de então, não tinham condições de dar uma explicação racional para os fenômenos estranhos que aconteciam. Por falta de uma explicação lógica, chamaram-nos de milagres. Assim, em termos religiosos, o milagre passou a ser entendido como algo que não deve ser questionado, bastando apenas acreditar nele por meio da fé.

         Felizmente, a crença no maravilhoso ou no sobrenatural vem diminuindo, graças ao progresso da ciência e da tecnologia, que tem cada vez mais revelado e explicado as leis que regem o mundo material.

         Entretanto, não podemos menosprezar a importância da contribuição da Doutrina Espírita que, ao revelar a existência dos espíritos e como agem sobre os fluidos e sobre a matéria, tem explicado muitos fenômenos como sendo o efeito dessa causa espiritual.

         E os espíritos nada mais são do que a alma dos homens que já viveram na Terra, e que continuam com sua vida, porém no mundo espiritual.

         Sobre essa vida dos espíritos, Kardec ainda diz:

 

         Sua existência, portanto, é tão natural depois, como durante a encarnação; está submetido às leis que regem o princípio espiritual, como o corpo o está às que regem o princípio material; mas, como estes dois princípios têm necessária afinidade, como reagem incessantemente um sobre o outro, como da ação simultânea deles resultam o movimento e a harmonia do conjunto, segue-se que a espiritualidade e a materialidade são duas partes de um mesmo todo, tão natural uma quanto a outra, não sendo, pois, a primeira uma exceção, uma anomalia na ordem das coisas. [2]

 

         Para os que negam a existência dos espíritos – ou do princípio espiritual –, tudo o que existe no Universo se restringe à matéria.

         Assim, os fenômenos que tenham por base a ação dessa espiritualidade serão, inevitavelmente, classificados como sobrenaturais. E, em virtude de eles se caracterizarem por forças ainda desconhecidas da natureza e, por causa disso, não poderem ser comprovados através dos habituais métodos da ciência oficial, também poderão ser taxados de afeitos à fantasia, à imaginação, à ilusão ou à alucinação.

         Entretanto, a ciência espírita existe para demonstrar como funcionam as leis que regem os fenômenos do campo material em conjunto com o campo espiritual, mas sem se utilizar de métodos absolutamente idênticos ao da ciência oficial. E isso porque os fenômenos espíritas, na grande maioria das vezes, se caracterizam pela espontaneidade, o que requer procedimentos bastante particulares.

         No mesmo capítulo, ao se referir às mesas girantes, Allan Kardec tece algumas considerações, que, por analogia, poderão ser aplicadas ao entendimento das manifestações espíritas em geral:

 

         Antes de se conhecerem as propriedades da eletricidade, os fenômenos elétricos passavam por prodígios para certa gente; desde que se tornou conhecida a causa, desapareceu o maravilhoso. O mesmo ocorre com os fenômenos espíritas.

            (...) Entretanto, dir-se-á, admitis que um Espírito pode levantar uma mesa e mantê-la no espaço sem ponto de apoio; não está aí uma derrogação da lei da gravidade? — Sim, da lei conhecida. Conhecem-se, porém, todas as leis? Antes que se houvesse experimentado a força ascensional de alguns gases, quem diria que uma pesada máquina, transportando muitos homens, poderia triunfar da força de atração? Ao vulgo, isso não pareceria maravilhoso, diabólico? Aquele que se houvera proposto, há um século, a transmitir uma mensagem a 500 léguas e receber a resposta dentro de alguns minutos, teria passado por louco; se o fizesse, teriam acreditado estar o diabo às suas ordens, porquanto, então, só o diabo era capaz de andar tão depressa.

            Hoje, no entanto, não só se reconhece possível o fato, como ele parece naturalíssimo. Por que, pois, um fluido desconhecido careceria da propriedade de contrabalançar, em dadas circunstâncias, o efeito da gravidade, como o hidrogênio contrabalança o peso do balão? É, efetivamente, o que sucede, no caso de que se trata. [2]

 

         O Espiritismo sempre se envolverá com explicações lógicas para o entendimento dos fenômenos conhecidos como sobrenaturais. Daí, a importância de seus adeptos estarem sempre atentos aos progressos da ciência, acompanhar tudo o que está acontecendo, para que o desenvolvimento de sua fé tenha como alicerce a razão, porque somente esta nos permite o real e profundo entendimento de todas as coisas.

         Para a doutrina espírita, a fé – essa confiança quanto à realidade espiritual, essa convicção de que o poder e sabedoria de Deus se manifestam através de leis imutáveis, porém amorosas – tem de ser esclarecida e bem fundamentada.

         E somente através dessa crença esclarecida que conseguiremos perseverar no bem, por entendermos que este é o mais satisfatório caminho para todos; que persistiremos em nosso esforço evolutivo, na certeza de que sempre alcançaremos resultados compensadores, agora ou depois, aqui ou na espiritualidade.

         Enfim, uma fé que nos permita melhor compreender os sofrimentos, superar as inevitáveis dificuldades da jornada terra, bem como transformar situações a partir da própria mudança interior. 

         Therezinha Oliveira, ao abordar sobre “os milagres que o Espiritismo faz”, nos ensina:

 

         O Espiritismo coloca ao nosso alcance muitos recursos espirituais com os quais se torna possível acionarmos certas leis naturais e produzirmos alguns fenômenos que ajudem ao próximo e a nós mesmos.

            Mas quem procurar o Espiritismo somente para obter cura imediata de seus males físicos e espirituais, ou resolver de pronto seus problemas materiais, poderá ficar decepcionado.

            Porque somente se realiza o que estiver dentro das leis divinas. E o Espiritismo não tem por finalidade principal a realização de fenômenos, mas, sim, o progresso moral da humanidade.

            O maior milagre que o Espiritismo faz não é tirar problemas e dores do nosso caminho. É explicar-nos o porquê das coisas e ensinar-nos: como podemos melhorar a nós mesmos para gerarmos efeitos felizes; como prevenir e resolver problemas espirituais, desde que empreguemos vontade e esforço no sentido do bem; ou ainda, como suportar aquilo que, por ora, não pode ser mudado porque serve de expiação ou de prova. [3]

 

****

 

         E os milagres que Jesus realizou? Sim, porque as páginas do Evangelho são repletas de sonhos, visões, curas, aparições, possessões e outros fenômenos inexplicados. Qual a explicação?

         De fato, Jesus fez apenas uma amostragem das realizações espirituais possíveis. “À época de Jesus, os milagres foram feitos para despertar as almas para a crença em Deus e nos espíritos, e eles abririam brechas nos corações a fim de o Evangelho penetrar.” [4]

         O Cristo, pela sua natureza superior,  é um espírito que, por suas virtudes, encontra-se em nível intelectual, moral e espiritual muitíssimo acima da humanidade terrestre.

         Para finalizar, ainda Allan Kardec, sobre Jesus:

 

            “Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente a seus mensageiros diretos confia, para cumprimento de seus desígnios.” [2]

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

[1] DENIS, LÉON. Cristianismo e espiritismo. 10. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 5.

 

[2] KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 8. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Cap. XIII.

 

[3] OLIVEIRA, THEREZINHA. Iniciação ao espiritismo. 9. ed. Campinas: Centro Espírita “Allan Kardec” – Dep. Editorial. 2001.

 

[4] MIRAMEZ (espírito); MAIA, João Nunes (psicografado por). Alguns ângulos dos ensinos do mestre. 5. ed. Belo Horizonte: Editora Espírita Cristã Fonte Viva.