"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Artigos

Crenças e preconceito

Qual a força de nossas crenças na maneira de vivermos nosso dia a dia? Elas sempre nos beneficiam? Existe alguma dinâmica entre nossas crenças e o preconceito? Somos criaturas preconceituosas? Qual foi o exemplo que Jesus nos deixou sobre essa questão?

 

As crenças – “opiniões que se adotam com fé e convicção” [1]  – são o conjunto de ideias, valores e informações recebidos por um indivíduo desde a sua infância, sendo, também, constituídas pelos mais diversos aprendizados e experiências que vivencia. Sendo assim, existem crenças profundamente negativas e outras bastante positivas.

         Quando um menino, por exemplo, escuta: “homem que é homem não chora!”, em verdade, está recebendo a ideia de que, se porventura, expressar suas emoções através de lágrimas, poderá estar colocando em dúvida a própria masculinidade. Ao chegar à fase adulta, muito provavelmente, essa criança terá dificuldades em expressar, de uma maneira geral, e não somente por meio de lágrimas, seus sentimentos, porque uma voz interior – ou seja, suas crenças – lhe diz que, independentemente da circunstância, necessita preservar aquela imagem de “homem forte”.

Da mesma forma, a pessoa que acredita que “o Espiritismo é coisa do demônio”, irá afugentar qualquer possibilidade de maior compreensão de seus postulados, pois já incorporou a má informação em seu interior.

         Esses dois exemplos demonstram que é em seu próprio conjunto de opiniões que um indivíduo, consciente ou inconscientemente, baliza suas razões e motivações para se comportar dessa ou daquela maneira, crer ou não em algo, concordar com determinada situação ou não, gostar ou desgostar de uma pessoa.

         Portanto, nossas crenças podem funcionar como impedimentos ou como permissões, determinando a nossa maneira de viver, o modo como interpretaremos as ocorrências e, por fim, a forma pela qual nos relacionaremos tanto com as demais pessoas como nós mesmos.

         Há uma passagem bastante interessante na vida de um médico, que passou a ser contada em forma de anedota, demonstrando de maneira incontestável o poder das crenças em nossa vida.

Um paciente psiquiátrico estava convicto de que havia morrido. Falava que era um cadáver e que, portanto, não precisava nem comer nem dormir. Apresentando já sérios problemas de saúde, o médico tentou retirá-lo daquele estado, encetando o seguinte diálogo:

 

“– Quer dizer então que o senhor está morto?

– Sim, doutor. Estou morto. Sou um cadáver.

– Entendo ... Cadáver sangra?

– Hummmm ... não, doutor. Cadáver não sangra.”

 

Inesperadamente, o médico tomou-lhe o dedo, espetando-o com uma agulha. Uma gotinha de sangue se pronunciou, fazendo com que o paciente, espantado, comentasse:

 

“– Doutor, que incrível! E não é que cadáver sangra!”

 

Com essa situação, podemos constatar que a importância de uma crença não reside em sua veracidade, mas na força que ela carrega. Mesmo que não seja real determinado pressuposto, a convicção a seu respeito é capaz de trazer resultados, positivos ou negativos, para quem o alimenta. Podemos comprovar isso na força do efeito placebo: quando um medicamento, cirurgia ou qualquer tipo de tratamento – que cientificamente não tem como trazer a cura –, se mostra eficaz em razão do conjunto de crenças que o paciente mobiliza, acionando seu poder autocurador.

         Com isso, torna-se imprescindível que nos conscientizemos de que muitas das “opiniões que adotamos com fé e convicção”, estão enraizadas em nós sem terem sido objeto de uma análise mais criteriosa de nossa parte. Simplesmente, adotamos determinadas crenças como sendo “verdades absolutas” e permitimos que, na maioria das vezes, emperrem a nossa vida. Portanto, se desejamos a sabedoria e o bem-estar, torna-se urgente a “reprogramação” de muitas delas. Se descobrirmos algo novo, melhor, mais saudável e positivo que nos poderá  ajudar, por que não reformular o que já existe em nós?

 “Com que crenças pretendo viver?” Esse questionamento deveria ser constante em nossa vida, a fim de direcioná-la conscientemente e melhor.

 

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Um direcionamento negativo de nossas crenças acontece quando nos deixamos conduzir pelo preconceito: “atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos”. [1]

         Um preconceito está intrinsecamente ligado à construção de pensamentos. E como ocorre esse processo? Na vivência de nosso cotidiano,  constantemente analisamos, avaliamos e emitimos juízos – ainda que não verbais – sobre as mais diversas situações e pessoas, em razão da necessidade de nos posicionarmos perante tudo o que acontece ao nosso redor. Assim, quando estamos diante do comportamento de alguém ou de determinada ocorrência, acessamos nossa memória – consciente e/ou inconsciente – e, a partir daí, construímos pensamentos que comportam conceitos – ou seja, crenças – anteriormente constituídos. E essa opinião, já estruturada em nós, nada mais é, em verdade, que um “pré-conceito”, e que noz faz considerar determinada pessoa ou situação como sendo boa ou má, correta ou errada, agradável ou desagradável, feia ou bonita.

Bem sabemos que, em nosso meio social, é comum as pessoas serem classificadas por sua condição financeira e/ou intelectual, pela estética, pelo poder que possui ou por qualquer outro parâmetro. Em razão disso, o preconceito pode apresentar vários aspectos: racial, religioso, social, sexual, intelectual, financeiro.

         No entanto, todas as feições que um preconceito pode assumir, revelam uma equivocada percepção da realidade, porque os pontos de vista preconcebidos  se  assentam na falsa premissa de que uma pessoa possa ser superior à outra. O branco pode julgar-se melhor que o negro, aquele que professa determinada religião pode achar que as demais estão erradas e que somente a sua é verdadeira; o rico tende a crer-se mais distinto que o pobre; o homem acreditar-se superior à mulher...

         O indivíduo preconceituoso tende a valorizar mais as aparências. Se uma pessoa está bem vestida, é considerada digna e de confiança, mas se a aparência geral não lhe agradar, certamente não terá por ela muita consideração. Com isso, rotula o outro com seus “pré-conceitos”, sem, no entanto, conhecê-lo verdadeiramente.

         Muitos acreditam que todo político comete atos ilícitos. Mas ninguém tem condição de conhecer “todos” os políticos! Aliás, as expressões “todo”, “sempre”, “nunca” expressam generalizações. E toda generalização nivela tudo ou todos no mesmo patamar, o que sabidamente é incorreto e injusto.

         O problema do preconceito é que ele gera toda a sorte de discriminações e exclusões, dificultando sobremaneira o relacionamento social, porque cria “verdades” que não são reais. A criatura preconceituosa torna-se radical ou mesmo bloqueada para outras crenças e concepções, o que restringe o seu modo de se expressar, de se relacionar e de viver.

 

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Os fariseus e escribas da época de Jesus eram extremamente preconceituosos e, obviamente, fechados em seu aspecto intelectual, rígidos no comportamento, bem como superficiais em seus julgamentos, visto  não  levarem em consideração as necessidades e os sentimentos das pessoas.Por isso, não podiam aceitar alguém como Jesus, que questionava muitos dos costumes e crenças da época.

         Os Evangelhos são enfáticos em mostrar que Ele, por ser uma pessoa avessa à discriminação, valorizava o ser humano, independentemente de sua condição social ou história de vida. Por não rotular as pessoas, todas eram dignas de se relacionar com Ele.  Em toda a sua vida, jamais houve lugar para a exclusão ou para o preconceito, o que fez com que Sua doutrina se caracterizasse pela solidariedade e igualdade dos direitos humanos. Jamais tratou com extremada consideração aqueles que possuíam mais ou que acreditavam ser mais. Por conhecer a injustiça que prevalecia na convivência social, atraiu aqueles que eram empurrados para a marginalização e travou com eles um relacionamento alicerçado no respeito e no amor.

         Ele próprio pertenceu a um lugar sem importância para a época, pois Nazaré era uma pequena povoação da Galiléia, nem mencionada no Antigo Testamento. É o que podemos concluir do comentário feito por Natanael, quando convidado pelo discípulo Filipe para conhecer Jesus: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê.” (Jo 14:6)  

         O Cristo, para demonstrar que era contra os mais diversos tipos de discriminações, foi, por exemplo, fazer uma refeição na casa de Simão, o leproso (Mt 26:6), bem como impediu o apedrejamento da mulher pega em adultério.

Muitos ainda têm dificuldade de perceber que Jesus transmitiu ricas mensagens, não apenas pelo que falou, mas, principalmente, pela força de seus gestos e atitudes. Seu cuidado e delicadeza para com as pessoas socialmente excluídas – as tidas como “lixo social” –, representam um belo exemplo de sua elevada humanidade.

O Espírito Joanna de Ângelis nos remete a profundas e sérias reflexões, ao afirmar:

 

Jesus respeitou todas as vidas, concedendo o direito de cidadania igualitária a todos quanto adotassem o reino de Deus e se empenhassem pelo conseguir.

Os modernos cristãos, conforme ocorreu com muitos outros do passado, não compreenderam esse ensinamento, que registraram no cérebro, mas não insculpiram nos sentimentos. São capazes de abordar o tema da solidariedade com lágrimas, no entanto, não saem do pedestal em que se encastelam, para proporcionar centralidade ao seu próximo, arrancando-o da periferia marginalizadora. [2] 

 

 

         Fácil e cômodo é observarmos o preconceito quando manifestado pelas outras pessoas. Mas, por que nossa maneira de pensar é, às vezes, tão radical? Por que nos comportamos, em certas ocasiões, como um ser absoluto que não duvida daquilo  em que acredita? Por que não questionamos nossos “pré?conceitos”? Por que ainda somos exclusivistas, arrogantes e injustos em nossos julgamentos?    

O cientista Albert Einstein, certa feita, fez uma colocação que nos leva a pensar: “Época triste é a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo.” [3] 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

[1] Michaelis: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

 

[2] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Lições para a felicidade. 3. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2003. Cap. 24. p. 140-41.

 

[3] DE LUCCA, José Carlos. Sem Medo de ser Feliz. 1. Ed. São Paulo: Petit, 1999. Cap. “Você é Preconceituoso?”.

 

Delfos – Revista Literária Espírita. Catanduva, SP: Boa Nova Editora. Ano II. Edição 4. nº 10.

 

______. Ano III. Edição 3. nº 15.

 

GARCIA, Wilson. Você e a reforma íntima. 1. ed. Capivari, SP: Editora Eldorado/EME, 1998.

 

HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Renovando Atitudes. 2. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 1997.

 

JOSÉ ANTONIO (espírito); VARGAS, Ana Cristina (psicografado por). Escravos da ilusão. 3. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2002.

 

 

Literatura não espírita

CURY, Augusto Jorge. O Mestre dos Mestres – Análise da Inteligência de Cristo. 55. ed. São Paulo: Academia de Inteligência, 1999.