Estudo do Evangelho

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que
faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”

(Mateus 7:21)

11 – Bem-aventurados os aflitos – Mt 5.4

 

 

 

 Esclareço que não sou especialista no assunto e nem alimento a pretensão de esgotá-lo. Apenas gosto de pesquisar e estudar, de tomar contato e de me inteirar de várias outras concepções, ainda que não seja totalmente adepta delas, bem como compartilhar o fruto de minhas buscas e descobertas. Mas sempre apresentarei o que o Espiritismo e a sua literatura tem a dizer sobre a questão. Os livros que não pertencerem ao movimento espírita, serão assim sinalizados.

 

 

 

 

Mateus 5.4

 

“Bem-aventurados os aflitos, porque eles serão consolados.” [1]

 

 

 

 

 

Lucas 6.21 e 25

 

“21. Bem-aventurados vós que chorais agora, porque rireis.

(...) 25. Ai de vós, os que estão rindo agora, porque estareis aflitos e chorareis.” [1]

 

 

  

 

Em Mateus, alguns manuscritos invertem a ordem dos versículos 4 e 5 (sobre os "mansos"). Entretanto, a crítica textual aconselha a manutenção da ordem familiar, embora alguns especialistas defendam a idéia de que a inversão corresponda ao texto original. [1] p. 49

 

A palavra aflição vem do grego thlipsis e significa o "ato de prensar, imprensar", representando, no Antigo Testamento, a opressão e angústia do povo de Israel (Dt 04.30, Sl 37.39); e, no Novo Testamento, uma situação de alta pressão, difícil e esmagadora, assemelhando-se a uma "tribulação" ou a um "dilema" (Mc 4.17 e 13.19; Jo 16.21 e 33; Rm 2.9, 8.35 e 12.12; 1Co 7.28; 2Co 1.4; Cl 1.24; 1Ts 1.6; Hb 10.33; Tg 1.27; Ap 2.9).

 

O aflito é, portanto, o indivíduo que se encontra numa situação de adversidade, catástrofe ou de sofrimento bastante intenso, que pode durar muito tempo. Às vezes, essa tribulação é imposta por uma pessoa ou circunstância; em outras, por ele mesmo; e, em determinados casos, acreditam alguns, por Deus.

 

Haroldo Dutra Dias, explicando o vocábulo aflito:

Lit. "os que estão aflitos, que lamentam a morte de alguém, que estão de luto (enlutados)". O verbo evoca toda a gama de sentimentos que um doloroso evento ou fato despertam no ser humano, especialmente aquelas emoções decorrentes da morte de alguém próximo, razão pela qual é comumente utilizado para descrever o enlutado. [1] p. 49

 

Tendo por referência o espírito e contexto do Antigo Testamento, alguns exegetas entendem que a forma passiva "serão consolados" sugere um desígnio divino: Deus é que proporcionará esse alívio.

 

Quanto ao pranto e à condição dos aflitos e sofredores, são inúmeras as referências na Bíblia. Por ex.: Salmos (18.6, 25.16-22, 34.19, 126.5-6 e +), Isaías (61.2-3) e Apocalipse (7.16-17).

 

 

Entendimento espírita para a ação de Deus na vida dos seres humanos

 

A primeira obra de Allan Kardec, O Livro dos Espíritos (Paris, 1857), apresenta a seguinte concepção sobre a "Intervenção de Deus nas penas e recompensas" [2]:

 

Questão 963:

Deus se ocupa pessoalmente de cada homem? Ele não é muito grande e nós muito pequenos para que cada indivíduo em particular tenha alguma importância aos seus olhos?

 

Deus se ocupa de todos os seres que criou, por menores que sejam; nada é muito pequeno para a sua bondade.  Livro IV. Cap. II

 

Questão 964:

Deus tem necessidade de se ocupar de cada um de nossos atos para nos recompensar ou nos punir, e a maioria desses atos não são insignificantes para ele?

 

Deus tem suas leis que regulam todas as vossas ações (10 dessas leis são desenvolvidas na 3ª parte desta obra: "Das leis morais"); se as violais é vossa falta. Sem dúvida, quando um homem comete um excesso, Deus não pronuncia um julgamento contra ele para lhe dizer, por exemplo: foste guloso e vou te punir. Mas, ele traçou um limite; as doenças e, frequentemente, a morte, são a consequência dos excessos: eis a punição. Ela é o resultado da infração da lei. Assim em tudo.

 

Nota explicativa de Kardec na sequência:

Todas as nossas ações estão submetidas às leis de Deus. Não há nenhuma, por mais insignificante que nos pareça, que não possa ser-lhe uma violação. Se suportamos as consequências dessa violação não devemos imputá-la senão a nós mesmos que nos fazemos, assim, os próprios artífices de nossa felicidade ou de nossa infelicidade futura.

 

A compreensão da Doutrina Espírita é que o consolo apregoado por Jesus estrutura-se, sobretudo, em duas leis divinas: imortalidade da alma e sucessividade das existências (reencarnação).

 

Com o conhecimento do porquê e do mecanismo das aflições - cujas causas podem ter sua origem tanto na presente existência como nas anteriores - e de sua finalidade no processo evolutivo, mais o indivíduo (espírito imortal que é) compreende que tais dificuldades lhe propiciam um efetivo consolo quando vivenciadas com compreensão e sem revolta, extraindo-se delas, por sua vez, todo o aprendizado necessário para o pleno atingimento da conscientização moral e espiritual e para a conquista da autorrealização, condições estas imprescindíveis para a construção do reino de Deus no próprio íntimo.

 

Em O Livro dos Espíritos, quanto à "justiça da reencarnação", temos:

 

Questão 171:

Sobre o que está baseado o dogma da reencarnação?

 

Sobre a justiça de Deus e na revelação, pois repetimos sempre: Um bom pai deixa sempre aos seus filhos uma porta aberta ao arrependimento. Não lhe diz a razão que seria injusto privar para sempre, da felicidade eterna, todos aqueles cujo progresso não dependeu deles mesmos? Não são todos os homens filhos de Deus? Somente entre os egoístas se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem perdão. Livro II. Cap. IV

 

Nota explicativa de Kardec na sequência:

Todos os Espíritos tendem à perfeição e Deus lhes fornece os meios pelas provas da vida corpórea; mas, em sua justiça, lhes faculta realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Não estaria de acordo com a equidade, nem com a bondade de Deus, castigar para sempre aqueles que encontraram obstáculos ao seu progresso, independentemente da sua vontade, no próprio meio onde foram colocados. Se o destino do homem está irrevogavelmente fixado após a sua morte, Deus não teria pesado as ações de todos na mesma balança, e não os teria tratado com imparcialidade.

A doutrina da reencarnação, isto é, aquela que admite para o homem várias existências sucessivas, é a única que responde à ideia que fazemos da justiça de Deus, em relação aos homens colocados em uma condição moral inferior, a única que nos explica o futuro e fundamenta nossas esperanças, pois que nos oferece o meio de resgatar nossos erros através de novas provas. A razão indica essa doutrina e os Espíritos no-lo ensinam.

O homem, consciente da sua inferioridade, tem, na doutrina da reencarnação, uma esperança consoladora. Se acredita na justiça de Deus, não pode esperar, por toda a eternidade, estar em pé de igualdade com aqueles que agiram melhor do que ele. O pensamento de que essa inferioridade não o deserdará para sempre do bem supremo, e que ele poderá superá-la por meio de novos esforços, o sustenta e lhe reanima a coragem.  Qual é aquele que, no fim de seu caminho, não lamenta ter adquirido muito tarde uma experiência que não pode mais aproveitar? Essa experiência tardia não ficará perdida; ele a aproveitará numa nova existência.

 

A terceira obra da Codificação Kardeciana, O Evangelho segundo o Espiritismo (Paris, 1864), no capítulo intitulado "Bem-aventurados os aflitos", apresenta:

3. As compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra não podem ocorrer senão na vida futura; sem a certeza do futuro, essas máximas seriam um contra-senso, bem mais, seriam um engodo. Mesmo com essa certeza, compreende-se dificilmente a utilidade de sofrer para ser feliz. É, diz-se, para ter mais mérito. Mas, então, pergunta-se, por que sofrem uns mais do que os outros? Por que uns nascem na miséria e outros na opulência, sem nada terem feito para justificar essas posição? Por que para uns nada dá certo, enquanto que para outros tudo parece sorrir? (...) A fé no futuro pode consolar e levar à paciência, mas não explica essas anomalias que parecem desmentir a justiça de Deus.

Entretanto, desde que admita Deus, não se pode concebê-lo perfeições infinitas; ele deve ser todo poder, todo justiça, todo bondade, sem o que não seria Deus. Se Deus é soberanamente bom e justo, não pode agir por capricho, nem com parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa e, uma vez que Deus é justo, essa causa deve ser justa. Eis do que cada um deve compenetrar-se bem. Deus colocou os homens sobre o caminho dessa causa pelos ensinamentos de Jesus, e, hoje, julgando-os bastante maduros para compreendê-la, a revelou inteiramente pelo Espiritismo, isto é, pela voz dos Espíritos. [3]  p. 70

 

 

Entendimento espírita para a causa das aflições

 

De O Evangelho segundo o Espiritismo:

4. As vicissitudes da vida são de duas espécies, ou, se assim se quer, têm duas fontes bem diferentes, que importa distinguir: umas têm sua causa na vida presente, outras, fora dela.

Remontando à fonte dos males terrestres, se reconhecerá que muitos são a consequência natural do caráter e da conduta daqueles que a suportam.

(...) Que todos que são atingidos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida, interroguem friamente sua consciência; que remontem progressivamente à fonte dos males que os aflingem, e verão se, o mais frequentemente, não podem dizer: Se eu houvesse feito ou não tivesse feito tal coisa, eu não estaria em tal situação.

A quem, pois, culpar de todas as suas aflições senão a si mesmo? O homem é, assim, num grande número de casos, o artífice dos seus próprios infortúnios; mas, ao invés de o reconhecer, ele acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade, acusar a sorte, a Providência, a chance desfavorável, sua má estrela, enquanto que sua má estrela está na sua incúria.

Os males dessa natureza formam, seguramente, um notável contingente nas vicissitudes da vida; o homem os evitará quando trabalhar para seu aprimoramento moral, tanto quanto para o seu aprimoramento intelectual.  p. 71

 

Neste mesmo capítulo, "Bem-aventurados os aflitos", Kardec o desenvolve, abordando os temas:

        Justiça das aflições

        Causas atuais das aflições

        Causas anteriores das aflições

        Esquecimento do passado

        Motivos de resignação

        O suicídio e a loucura

        Bem e mal sofrer

        O mal e o remédio

        A felicidade não é deste mundo

        Perda de pessoas amadas. Mortes prematuras

        Se fosse um homem de bem teria morrido

        Os tormentos voluntários

        A infelicidade real

        A melancolia

        Provas voluntárias. O verdadeiro cilício

        Deve-se pôr termo às provas do próximo?

        É permitido abreviar a vida de um doente que sofra sem esperança de cura?

        Sacrifício da própria vida

        Proveito dos sofrimentos para outrem

 

 

Entendimento espírita para o “Ai de vós, os que estão rindo agora”

 

De O Evangelho segundo o Espiritismo sobre a “Infelicidade Real”:

24. Todo o mundo fala da infelicidade, todo o mundo a experimentou e crê conhecer seu caráter múltiplo. Venho vos dizer que quase todos se enganam, e que a infelicidade real não é tudo aquilo que os homens, quer dizer os infelizes, a supõem. Eles a vêem na miséria, no fogão sem lume, no credor ameaçador, no berço vazio do anjo que sorria, no féretro que se acompanha de cabeça descoberta e de coração partido, na angústia da traição, na nudez do orgulhoso que gostaria de se cobrir de púrpura e que esconde com dificuldades sua nudez sob os farrapos da vaidade; a tudo isso, e a outras coisas ainda, se chama de infelicidade na linguagem humana. Sim, é a infelicidade para aqueles que não senão o presente; mas a verdadeira infelicidade está nas consequências de uma coisa, mais do que na própria coisa. Dizei-me se o acontecimento mais feliz para o momento, mas que têm consequências funestas, não é em realidade mais infeliz que aquele que causa primeiro uma contrariedade, e acaba por resultar no bem?

(...) Para julgar uma coisa é preciso, pois, ver-lhe as consequências; é, assim que, para apreciar o que realmente é feliz  ou infeliz para o homem, é preciso se transportar além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir; ora, tudo o que se chama infelicidade segundo sua curta visão, cessa com a vida e encontra a sua compensação na vida futura.

(...) A infelicidade é a alegria, é o prazer, é a fama, é a agitação vã, é a louca satisfação da vaidade, que fazem calar a consciência, que comprimem a ação do pensamento, que atordoam o homem sobre o seu futuro; a infelicidade é o ópio do esquecimento que ardentemente procurais conseguir.

Esperai, vós que chorais! tremei, vós que rides, porque vosso corpo está satisfeito! Não se engana a Deus; não se esquiva do destino; e as provas, credoras mais implacáveis que a matilha excita pela miséria, espreitam vosso repouso ilusório para vos mergulhar de repente na agonia da verdadeira infelicidade, daquela que surpreende a alma enfraquecida pela indiferença e pelo egoísmo. p. 88

 

De Divaldo Pereira Franco, quanto à “Desgraça real”:

Desgraça é todo acontecimento funesto, desonroso, que aturde e desarticula os sentimentos, conduzindo a estados paroxísticos, desesperadores.

(...) Há, no entanto, desgraças e desgraças. As primeiras são as que irrompem desarticulando a emoção e desestruturando a existência física e moral da criatura que, não raro, sucumbe ante a sua presença; e aqueloutras, que não são identificadas por se constituírem consequências de atos infelizes, arquitetados por quem ora lhes padece os efeitos danosos. Essas, sim, são as desgraças reais.

Há ocorrências que são enriquecedoras por um momento, trazendo alegrias e benesses, para logo depois se converterem em tormentos e sombras, escassez e loucura. No entanto, quando se é responsável pela infelicidade alheia, ao trair-se a confiança, ao caluniar-se, ao investir-se contra os valores éticos do próximo, semeando desconforto ou sofrimento, levando-o ao poste do sacrifício, ou à praça do ridículo, a isso chamaremos desgraça real, porque o seu autor não fugirá da própria nem da Consciência Cósmica.

Assim considerando, muitos infortúnios de hoje são bênçãos, pelo que resultarão mais tarde, favorecendo com paz e recuperação o déspota e infrator de ontem, em processo de reparação do mal praticado.

Sob outro aspecto, o prazer gerado na insensatez, os ganhos desonestos, as posições de relevo que se fixam no padecimento de outras vidas, o triunfo que resulta de circunstâncias más para outrem, os tesouros acumulados sobre a miséria alheia, os sorrisos da embriaguez dos sentidos, o desperdício e abuso ante tanta miséria, constituem fatores propiciadores de dolorosos efeitos, portanto, são desgraças inimagináveis, que um dia ressurgirão em copioso pranto, em angústias acerbas, em solidão e deformidade de toda ordem, pela necessidade de expungir-se e reeducar-se no respeito às Leis soberanas da Vida e aos valores humanos desrespeitados.

O Homem-Jesus não poucas vezes chamou a atenção para essa desgraça, não considerada, e para a felicidade, por enquanto envolta em problemas, mas única possibilidade de ser fruída por definitivo.

Todos os que choram, os famintos e os sequiosos de justiça, os padecentes de perseguições, todos momentaneamente em angústia, logo mais receberão o quinhão do pão, da paz, da vitória, se souberem sofrer com resignação, após haverem resgatado os compromissos infelizes a que se entregaram anteriormente, e geradores da situação atual aflitiva.

(...) São inderrogáveis as Leis da Vida, constituindo ordem e harmonia no Universo.

(...) A maneira providencial para vencer-se a desgraça de qualquer tipo é o comportamento no presente, mesmo que a preço de sacrifício e renúncia, construindo-se o futuro harmônico.

O canto das Bem-aventuranças é o poema de maior destaque na constelação dos discursos de Jesus.

Nele começa a real proposta da Era Nova, quando os valores éticos serão realmente conhecidos e respeitados, facultando ao ser humano compreender a transitoriedade do carro físico a que se encontra atrelado momentaneamente e a perenidade da vida em outra faixa vibratória." [4]

 

 

 

Bem-aventurados os que choram...

 

“Dizem que todos choram, que a humanidade inteira geme sob o acicate da dor e que esse sofrimento é o preço do pecado introduzido na terra pelos nossos pais - Adão e Eva.

 

(...) A concepção de que as misérias desta vida são decorrências do pecado original, ou provações necessários a todas as almas, para que, depois de sua passagem por este mundo, saibam apreciar melhor as alegrias e as doçuras da mansão celestial, (...) há  introduzido muitos homens a descrerem por completo da Providência, ou seja, da sabedoria suprema com que Deus conduz todas as coisas.

 

(...) O sofrimento - segundo a Doutrina Espírita - é consequência inelutável da incompreensão e dos transviamentos da Lei que rege a evolução humana.

 

(...) Criados para a felicidade completa, só a conheceremos, entretanto, quando fomos perfeitos; qualquer jaça ou falha de caráter interdita-nos a entrada nos mundos venturosos e, pois, é através das existências sucessivas, neste e em outros planetas, que nos vamos purificando e engrandecendo, pondo-nos em condições de fruir a deleitável companhia das almas santificadas.

 

Quanto maiores tenham sido nossas quedas, tanto mais enérgico precisa ser o remédio destinado a curar nossas chagas; então, aqueles que muitos sofrem são os que mais culpas têm a expiar, e devem alegrar-se à ideia de que as lágrimas do sofrimento, suportado com paciência e resignação, lavam a consciência e acrisolam o espírito, constituindo-se, por assim dizer, o preço com que se adquirem as mais suaves consolações na vida futura.

 

Explicada a missão providencial da dor e sua benéfica influência na reforma e melhoria das almas, já agora podemos compreender o alcance das palavras do Mestre, quando proclamava: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados"."  [5]

 

 

 

 

 

Felizes os que choram, pois Deus os consolará

 

“A consolação prometida por Jesus resulta da compreensão da justiça das nossas lágrimas.

 

(...) Por isso, hoje eu me consolo, pois sei que é uma razão justa para o meu sofrimento; que não sou vítima de nenhum "engano" da Justiça Cósmica. A posição de vítima que muitos de nós assumimos diante dos problemas que nos acometem é uma das piores tragédias que nos poderiam acontecer, pois nos faz sentir injustiçados perante a vida. E a vítima não age; chora improdutivamente, revoltando-se contra tudo e contra todos, e permanece à espera de um salvador que possa resolver suas dores.

 

Seremos consolados quando choramos a partir da compreensão de que não sofremos sem justa razão de ser e que nossas lágrimas não representam castigos de Deus, mas apenas o débito que contraímos no passado de hoje ou de ontem, com a possibilidade de refazermos nosso caminho, nosso modo de ser e de agir, eliminando, assim, as causas do nosso sofrimento.

 

Convertamos a dor em aprendizado para nossa alma. Aceitemos a prova como recurso divino, destinado a retificar nossos passos na Terra, expulsando as nuvens da revolta e do desânimo que ainda pairam sobre o nosso coração e estimulando os nossos potenciais de crescimento perante a vida. Deus não nos castiga, e os problemas que hoje arrancam nossas lágrimas são recursos divinos sem os quais não sairíamos do lugar onde estacionamos na rota da evolução. A dificuldade não é punição celestial, mas, sim, oportunidade de progresso que Deus nos proporciona.

 

Portanto, somos felizes quando temos problemas a resolver, porque, assim, vamos nos harmonizando com a Lei Divina que ontem desprezamos. E, por meio do esforço que realizamos para superar os obstáculos que nós mesmos criamos, vamos crescendo, material e espiritualmente. E quanto mais crescimento conseguimos alcançar, mais alegria e felicidade seremos capazes de sentir.

 

(...) Enfrentar desafios, perdas, obstáculos é inevitável a todos nós. Faz parte das provas que temos de enfrentar para atingir o nosso crescimento moral e intelectual. A dor nos humaniza, torna-nos mais humildes e fraternos em relação à dor do próximo e nos ensina a valorizar as coisas essenciais da vida, às quais, na maioria das vezes, só damos valor quando perdemos.

 

(...) Quando você estiver chorando, mas chorando com humildade e com o propósito de aprender a lição que a vida está querendo lhe ensinar, tenha certeza de que suas lágrimas estarão tocando o coração de Jesus, e Ele estará pronto para aliviar seu pranto e indicar o caminho que você deve seguir." [6]

 

 

 

 

 

Ainda é Tempo

 

“É provável que, ainda agora, te vejas consumido pela amargura, lamentando os momentos infelizes, que te levaram a erros e desvios.

Cobriste de ilusões a alma frágil e ingênua, que seduziste por capricho, declamando promessas impossíveis de cumprir.

 

***

 

Injuriaste de corpo físico com abusos de toda espécie, indiferente aos apelos da moderação, minando a saúde e o equilíbrio.

 

Sorveste a taça de prazeres desvairados, em aventuras inconsequentes, dilapidando o patrimônio das horas e as possibilidades de realização.

Cultivaste vantagens ilegítimas, movido por ambição e egoísmo, prejudicando o direito alheio.

 

Abraçaste o vício por companheiro inseparável, surdo às advertências amigas, destruindo a dignidade própria e a harmonia interior.

 

Desperdiçaste talento e inteligência, desprezando o dever nobre, para caíres no precipício do comodismo e da inutilidade.

 

***

 

Agora que reencontras o Cristo em teu caminho, buscando os ensinos da Boa Nova, sentes o aguilhão da consciência e te vergas ao peso do remorso. Pensas nos prejuízos que causaste, nas dores que infligiste, nos desenganos que espalhaste, no tempo que perdeste. E, no segredo de tua solidão, choras em silêncio, imaginando-te a pior das criaturas.

 

É verdade que não podes fugir às consequências de teus atos. Entretanto, Deus é juiz amorável, que distribui justiça e misericórdia, ofertando-te, a cada momento, a oportunidade de renovação íntima.

 

Ainda é tempo de construir o bem. À tua volta, pululam aflições e necessidades, lágrimas e infortúnios, à espera do carinho de tuas mãos operosas e benevolentes. Não tenhas medo de recomeçar e, tomando o Evangelho, por roteiro de vida, segue adiante, ama, trabalha, ajuda e confia sempre na Providência Divina.

 

***

 

Não estás sozinho nessa estrada redentora. Jesus acompanha teus passos vacilantes, sustentando-te a coragem e o ânimo. E toda vez que sucumbes à paralisia do remorso, o Mestre Divino afaga-te o coração dilacerado e, acreditando na sinceridade de teus propósitos, fala à tua alma com firmeza e amor:

 

– Levanta-te e anda.” [7]

 

 

 

 

 

"Felizes os que choram, ansiosos em obter esse Espírito, embora presos às sensações. E choram porque sentem a dificuldade de libertar-se das provações e tentações a que os sentidos os arrastam.

 

Não se trata de chorar por chorar, que isso de nada adiantaria à evolução. Fora assim, os que vivem a lamentar-se da vida seriam os mais perfeitos... e aqueles que criam doenças e males imaginários, levados pela autocompaixão, para sobre si atraírem alheias atenções, palavras de conforto, estariam como elevados na linha evolutiva... Nada disso: as lágrimas enchem os olhos e sobretudo o coração diante do próprio atraso, diante da verificação de quanto ainda somos involuídos. E isso trar-nos-á a consolação de ver-nos finalmente libertados.

 

Não podemos admitir más interpretações em textos de tão alta espiritualidade, que trazem incontestável clareza na exposição de seu pensamento.

 

(...) Além da prisão na matéria, o "espírito", que compreendeu sua necessidade imperiosa de evoluir, procura libertar-se, também, das sensações causadas por forças externas; e chora pelo fato de ver-se ainda prisioneiro dos cincos sentidos limitadores, cinco portas por onde entram as "tentações", as provações, os sofrimentos que ainda lhe ferem a sensibilidade.

 

Para todos, as tentações ou provações, as dores e sofrimentos "físicos", são causados pelas forças etéricas (no sistema nervoso). Ora, todo esse complexo de forças em choques violentos traz lágrimas de angústia, na verificação da dificuldade (ou até, por vezes, da impossibilidade) de libertação imediata.

 

Nesse plano etérico manifestam-se os elementais, as obsessões tenazes, os assédios do hipnotismo coletivo de forças que vivem a sugestionar a humanidade, quer pela propaganda, quer pelas idéias-matrizes que procuram amoldar a elas nosso intelecto, provenientes de elementos encarnados ou desencarnados.

 

Toda a humanidade, atualmente, se acha hipnotizada ou pelo menos sugestionada pela leitura, pela audição (de rádios), pela visão de imagens nas TVs, que impõem idéias, produtos, "slogans", pontos de vista, buscando desviar a criatura (tentá-la) para fazê-la sair da estrada certa da interiorização que a levaria à felicidade do encontro com o Cristo Interno, ao mergulho na Consciência Cósmica. Sente-se o homem "em trevas", sem saber por onde fugir a esse impiedoso cerco de forças violentas. E para estes é que o Cristo se apresenta: "Eu sou a Luz do mundo", desse mundo conturbado.

 

Então a prece que mais natural se expande de nosso coração, consiste nas palavras "Não nos induzas às provações", não nos leves, Pai, a uma permanência demasiadamente longa nesse plano; e ao proferir essas palavras, as lágrimas saltam do coração para os olhos.

 

Mas ainda felizes os que choram essas lágrimas, porque ao menos compreenderam seu estado e, com essa compreensão, tem os meios de sair dele: esses, pois, serão consolados com a libertação dessas angústias torturantes, mas, ao mesmo tempo, purificadoras. [8]

 

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

 

 

Referências

 

[1] DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento/ tradução de Haroldo Dutra Dias. 1. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. 

 

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

 

[3] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. 

 

[4] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Jesus e o Evangelho à luz da Psicologia Profunda. 1. ed. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada, 2000. Cap. “A desgraça real”. P 45.

 

[5] CALLIGARIS, Rodolfo. O sermão da montanha. 9. Ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. “Bem-aventurados os que choram...”. p 17.

 

[6] LUCCA, José Carlos de. Alguém me tocou. 1. ed. São Paulo: Interlítera Editora, 2012. Cap. “Felizes os que choram, pois Deus os consolará”. P 22.

 

[7] ANDRÉ LUIZ (espírito); BADUY FILHO, Antônio (psicografado por). Vivendo o Evangelho – volume I. 1. ed. Araras, SP: IDE, 2010. Cap. V. p. 105.

 

[8] PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Publicação da Revista Semanal. Rio de Janeiro. 1964.  Volume II. p. 85. Disponível na Internet em: http://bvespirita.com/Livros-C.html, acessado em 26.05.2018

 

 

TEOLOGAR. No mundo tereis aflições. Disponível na Internet em: http://teologar.com.br/no-mundo-tereis-aflicoes/  - acessado em 26.09.2018 (literatura não-espírita)

 

Tribulação. Disponível na Internet em: http://mb-soft.com/believe/ttwm/tribulat.htm - acessado em 26.09.2018 (literatura não-espírita)

 

BIBLIOTECA BÍBLICA. Tribulação - palavra grega. Disponível na Internet em: https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2015/10/tribulacao-palavra-grega.html  - acessado em 26.09.2018 (literatura não-espírita)

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