"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Artigos

Afetividade

No que consiste a afeição? Em nossa essência, existe instalada a necessidade de afeto? A troca de afetos é fator estimulante do progresso? Por que a repressão de nossa afetividade gera desequilíbrios? Somos plenamente afetivos, afetuosos? Por que a aspiração pelo amor causa medo em inúmeras pessoas?

  

           

Defluente da lei natural da Vida, a afetividade é sentimento inato ao ser humano em todos os estádios do seu processo evolutivo.

Esse conjunto de fenômenos psicológicos expressa-se de maneira variada como alegria ou dor, bem-estar ou aflição, expectativa ou paz, ternura ou compaixão, gratidão ou sofrimento...

Embora no bruto se manifeste com a predominância da posse do instinto, aprimora-se à medida que a criatura alcança os patamares mais elevados da razão, do discernimento e do amor.

Mesmo entre os animais denominados inferiores, vige a afetividade em formas primárias que se ampliarão através do tempo, traduzindo-se em apego, fidelidade, entendimento, como automatismos que se fixaram por meio da educação e da disciplina.

Não obstante os limites impostos pelos equipamentos cerebrais, em alguns é tão aguçada a percepção, que o instinto revela pródromos de inteligência, que são também expressões de afeto.

No ser hominal, em face dos valores da mente, o sentimento desata a emoção, e a afetividade exterioriza-se com mais facilidade.

Imprescindível à existência feliz, por intermédio do tropismo do amor, desenvolve-se e enternece-se, respondendo pelas glórias da sociedade, pelo progresso das massas, pelo crescimento da consciência e pela amplitude do conhecimento.

Na raiz de todo o empreendimento libertador ou de todo empenho solidário, encontra-se a afetividade ao ideal, à pessoa, à Humanidade, estimulando, e, quando os desafios fazem-se mais graves, ei-la amparando o sentimento nobre que não pode fenecer e a coragem que não deve enfraquecer-se.

No começo, é perturbadora, por falta de discernimento do indivíduo a respeito do seu significado especial. No entanto, quando se vai fixando nos refolhos da alma, torna-se abençoado refrigério para os momentos difíceis e estímulo para a continuação da luta.

Sem ela a vida perderia o seu significado, tão eloquente se apresenta na formação da personalidade e da estrutura psicológica do homem e da mulher.

A afetividade proporciona forças que se transformam em alavancas para o progresso, alterando as faces desafiadoras da existência e tornando a jornada menos áspera, porque se faz dulcificada e esperançosa.

Ninguém consegue fugir-lhe à presença, porque, ínsita no Espírito, emerge do interior ampliando-lhe na área externa e necessitando de campo para propagar-se.

A afetividade é o laço de união que liga os indivíduos por meio do sentimento elevado e os impulsiona na direção do Divino Amor. [1]

 

 

     A afeição, segundo definição, é um “sentimento de carinho, de ternura por algo ou alguém”. [2] Corroborando as palavras de Joanna de Ângelis, quando diz que “a afetividade é sentimento inato ao ser humano em todos os estádios do seu processo evolutivo”, em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, temos que o amor é de essência divina e todos nós, indistintamente, carregamos “no fundo do coração a chama desse fogo sagrado.” E tal fato pode ser constatado, muitas vezes, naquele indivíduo, que, por mais abjeto, vil e criminoso que seja

 

tem por um ser, ou por um objeto qualquer, uma afeição viva e ardente, à prova de tudo que tendesse a diminuí-la, e atingindo, frequentemente, proporções sublimes.  

(...) Mas, qualquer coisa que façam, não saberão sufocar o germe vivaz que Deus lhes depositou nos corações, na sua criação; esse germe se desenvolve e engrandece com a moralidade e a inteligência, e, ainda que comprimido pelo egoísmo, é a fonte de santa e doces virtudes que fazem as afeições sinceras e duráveis, e vos ajudam a transpor a rota escarpada e árida da existência humana. [3] 

 

Em nossa essência existe a necessidade de afeto, ou seja, das experiências de carinho e de ternura que possamos ter para com o mundo à nossa volta. Amar, bem como sentir-se amado e respeitado, representa, desse modo, a convergência de todos os objetivos humanos. No entanto, muitos são os indivíduos que enganam a si mesmos, acreditando que estão buscando, em primeiro lugar, a sabedoria, o dinheiro ou o poder.

 

A troca de afetos é também fator estimulante de progresso. Sem esse compartilhar “a vida perderia o seu significado, tão eloquente se apresenta na formação da personalidade e da estrutura psicológica do homem e da mulher.” [1]

    

Por isso, proibir, reprimir ou mesmo restringir as mais variadas manifestações da afetividade somente tem o poder de desviá-la para alternativas que, na maioria vezes, acabam em desequilíbrios. Porque é o conjunto de nossos afetos – ou seja, a nossa afetividade – que caracteriza a conduta de cada um de nós, expressando-se nos sonhos e desejos, nas expectativas, nas palavras, nos gestos...

     

Em razão do atual estágio evolutivo da humanidade, a vida afetiva ainda é caracterizada por dois sentimentos bastante antagônicos, o amor e o ódio, e estão sempre presentes na vida psíquica de cada um de nós, de modo mais ou menos integrado. É nesse sentido que de Ângelis afirma que esse conjunto de fenômenos psicológicos – a afetividade – manifesta-se através das polaridades positiva e negativa, ou seja, na alegria e na dor, no bem-estar e na aflição, na ternura e na compaixão, na gratidão e no sofrimento. Em outro momento de suas considerações, ela ensina:

 

Quando se pode entender e se tem olhos de ver, é possível distinguir a afetividade nos mais variados sentimentos humanos, a saber:

o egoísmo é a afetividade a si mesmo;

o ressentimento é a afetividade egoísta que não foi comprazida;

a bondade é a afetividade que se expande;

o ciúme é a afetividade insegura e possessiva;

o trabalho é a afetividade ao dever;

o ódio é a afetividade que enlouqueceu;

o auxílio fraterno é a afetividade em ação;

a vingança é a afetividade que enfermou;

a preguiça é a afetividade adormecida;

o amor é a afetividade que se sublima;

a caridade é o momento máximo de afetividade... [1]

 

Tais palavras nos levam a refletir sobre a nossa capacidade de sermos afetivos, afetuosos. Será que já podemos sair de nós mesmos, dos nossos conflitos e bloqueios, de modo a oferecer à outra pessoa, seja ela quem for, uma atenção, uma consideração, um carinho a mais, sem que ela nos peça ou mesmo esteja esperando por isso? Jason de Camargo enfatiza:

 

Dar e receber afeto estão entre as necessidades fundamentais do ser humano. O afeto representa aquele tipo de energia que chega a nós como uma mensagem silenciosa de carinho. No geral, as pessoas que têm dificuldades em receber ou dar carinho é porque possuem bloqueios psíquicos na área da afetividade. Muitas vezes as rejeições afetivas, o desgosto sofrido no passado por pessoas a quem se estimava, as desconfianças demasiadas e outros problemas psicológicos têm levado as pessoas a sofrerem a perda desse contato de capital importância na vida de relações. [4]

 

A realidade é que a maioria dos indivíduos sofre por questões afetivas, muitas vezes, transformando sua vida numa sucessão de experiências dolorosas pela falta de habilidade para viver em harmonia com os demais. Desse modo, a busca pelo autoconhecimento e a percepção de si mesmo favorecerá a conscientização de que essa inabilidade é a principal responsável pela sensação de vazio interior. Ademais, a solidão somente existe para quem se sente só, mesmo estando rodeado de circunstâncias diversas, capazes, portanto, de propiciarem variadas realizações e satisfações. O espírito Hammed atesta:

 

Por não admitirmos nossa incapacidade de amar verdadeiramente, é que permanecemos desestimulados e conformados a viver uma existência com fronteiras bem limitadas na área da afetividade.  [5]

Amar não significa esperar que alguém nos satisfaça todos os anseios e necessidades que cabe só a nós satisfazer. [6]

 

A busca pelo amor é legítimo e saudável, bem como estimula, em cada um de nós, o despertar da inteligência e dos potenciais inatos, a fim de crescermos tanto nos campos da religião, do conhecimento, da ciência, como em outros tantos setores do desenvolvimento humano. A afetividade responde “pelas glórias da sociedade, pelo progresso das massas, pelo crescimento da consciência e pela amplitude do conhecimento.” [1]

     

No entanto, a aspiração pelo amor causa em inúmeras criaturas uma sensação de inadequação, de medo. E, por esse motivo, elas reprimem sua afetividade, voluntária ou inconscientemente, acreditando que o desejo de amar possa representar motivo de fraqueza, de vergonha ou mesmo de submissão. Tais criaturas, por apresentarem um íntimo inseguro e imaturo para a doação – isso porque a afetividade implica em doação e entrega –, são arredias e apresentam, de maneira geral, dificuldades para estabelecer contatos afetivos. Não apenas são de difícil sociabilidade, como também não sabem expressar seus sentimentos, desejos e necessidades.

     

Existem aquelas também que somente se unem a outras por medo de ficarem sozinhas. Dessa forma, a busca do amor é mascarada pela necessidade de se sentirem amparadas e cuidadas.

     

Outras, para compensarem sua insatisfação no campo da afetividade, trabalham incessante e exaustivamente, aspirando à aprovação alheia de tudo o que fazem ou acreditam. Querem ser compreendidas, parecerem perfeitas e importantes, impressionarem as pessoas. Em suma, é o anseio de ser plenamente aceita pelos demais, custe o que custar.

     

Em outros casos, a afetividade é dirigida apenas à determinada pessoa ou grupo de pessoas (filhos, pais, amigos etc), mas de forma excessiva e compensatória. Com isso, sobrecarrega-se a relação, exigindo do outro mais do que ele pode oferecer em termos de manifestações afetivas, carinho, atenção ou – até mesmo! – obediência.

     

Não rara, então, é a confusão entre amor e poder. Vários comportamentos são justificados como manifestações de amor, quando, na verdade, o que os motiva é o desejo de controle e de poder. É óbvio que todos esperamos ser correspondidos quanto ao afeto que oferecemos, mas isso nem sempre é possível. Quando as expectativas não se encontram bem ajustadas, doar em excesso, quase sempre, significa cobrar em demasia. Dessa forma, as desilusões afetivas, de modo geral, são ocasionadas pelas ilusórias expectativas que se cria em torno dos relacionamentos.

     

Em razão de a troca de afetos aprimorar-se à medida que a criatura alcança “patamares mais elevados da razão, do discernimento e do amor” [1], a autêntica afetividade também encontra-se associada a um consistente amadurecimento espiritual. Assim, aquela que a possui caracteriza-se pela amorosidade, caridade, generosidade e benevolência, porque seus contatos acontecem em todos os níveis, com todas as pessoas, independente de sexo, idade ou qualquer outra discriminação, propiciando crescimento, sobretudo, àqueles que com ela convive.

     

Segurança, alegria e sucesso na vida estão diretamente relacionados à capacidade de se estabelecer conexões afetivas caracterizadas pelo comprometimento e desapego. Nessa direção, as palavras finais de de Ângelis são as seguintes:

 

Em qualquer circunstância libera a tua afetividade desencarcerando-a,  a fim de que se expanda e beneficie os demais.

A afetividade é portadora de especial conteúdo: quanto mais se doa, mais possui para oferecer.

É rica, infinitamente possuidora de recursos para expender.

Jamais te arrependas por haveres sido afetuoso.

Não te facultes, porém, uma afetividade exigente, que cobra resposta, que se impõe, que aguarda retribuição.

Atinge o elevado patamar emocional da afetividade que se esquece de si mesma para favorecer a outrem, conforme Jesus a viveu, sem apego nem decepção, por não haver recebido compensação.

A afetividade se completa no próprio ato de expandir-se. [1]

 

 

 

Amor Sempre

 

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Mt 22:39

 

O amor é a emoção máxima que o ser humano consegue sentir no atual estágio de evolução em que se encontra. Ao reafirmar a regra áurea bíblica, o Cristo nos trouxe a certeza de que, por enquanto, nenhum outro sentimento se sobrepõe ao amor.

O próximo mais próximo de nós é a personalidade interna e oculta em nosso íntimo, que nos exige atenção e equilíbrio. Isso não se constitui em justificativa para nos isolarmos das pessoas com as quais estejamos em relação direta. O próximo com quem nos relacionamos externamente terá sempre primazia em relação ao “próximo” interno.

O como a ti mesmo significa a necessidade de nos amarmos como somos, a fim de podermos entender o amor ao próximo. Só verdadeiramente ama o próximo quem se conhece o suficiente para não realizar projeções enganosas.

(...) Podemos tomar a afirmação acima num sentido psicológico estabelecendo que o amor a si mesmo predispõe a mente a permanecer num estado de consciência que permite a compreensão da totalidade à sua volta. Amar a si mesmo é entrar em contato com sua essência íntima, assumindo-se como ser no universo, responsável total e de forma consciente pelos próprios atos, sem transferir sua responsabilidade para terceiros. É a consciência de ser deus e ter Deus em si mesmo.

Psicologicamente, é mais sensato entregar-se à busca do amor universal do que do amor particular. Enquanto este traz predisposições momentâneas e se presta facilmente às projeções, aquele capacita à vida eterna e elimina projeções inconscientes.

(...) O amor ao próximo não se resume ao sentimento de afeição e ternura que temos para com um companheiro ou companheira, para com um parente ou alguém especial em nossa vida. Ele extrapola os limites da consanguinidade e da sexualidade. O amor ao próximo é o amor indiferenciado, sem face nem rótulo, sem restrições, sem bandeira e sem países. É o amor à Vida em toda sua plenitude. É aquele que se tem ao ser humano na sua humanidade e que possibilita a percepção da obra de Deus através dele mesmo.

(...) Esse sentimento de amor para consigo mesmo serve, ao mesmo tempo, para permitir à mente um estado de paz e felicidade, como também para uma espécie de autoterapia preventiva dos estados psíquicos que impedem o bom desenvolvimento da personalidade. Amar alguém como a si mesmo garante, do ponto de vista psíquico, clareza nas percepções dos próprios processos conscientes e, principalmente, inconscientes.

Quando realizamos projeções, isto é, quando notamos, de forma inconsciente, nos outros, características de personalidade que são nossas, não nos damos conta de que a simpatia ou antipatia que nutrimos por aquela pessoa se refere a nós mesmos. Por este ângulo, quem ama ou detesta alguém, o faz a si mesmo. Amar o próximo como a si mesmo pressupõe que as duas atitudes estão intrinsecamente relacionadas. Quanto mais amo o próximo, indistintamente, mais a mim mesmo amo. Quanto mais amo a mim mesmo, sem exagero narcisista, mais sou capaz de amar meu semelhante.

Do ponto de vista psicológico, amar o próximo como a si mesmo é predispor-se ao equilíbrio psíquico e à possibilidade de trabalhar seus conteúdos emocionais, desta ou de outras encarnações, com a certeza de que será bem sucedido no intento.

(...) Amar o próximo como a si mesmo é permitir a manifestação de Deus em nós. [7]

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

[1] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Diretrizes para o êxito. 2. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2004. Cap. 26.

 

[2] iDicionário Aulete. Disponível em: <http://aulete.uol.com.br/afeicao>. Acesso em: 31.10.2012.

 

[3] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. 11. Item 9. p. 147.

 

[4] CAMARGO, Jason de. Educação dos sentimentos. 5. ed. Porto Alegre: Letras de Luz, 2003. Cap. 4. p. 78.

 

[5] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Espelho d’água. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2001. p. 88.

 

[6] ______. Os prazeres da alma. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2003. Cap. “Afetividade”. p. 51.

 

[7] NOVAES, Adenáuer. Psicologia do evangelho. 2. ed. Salvador, BA: Fundação Lar Harmonia, 2001. Cap. 11.

 

NOVAES, Adenáuer. Evangelho e família. 1. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2002.