"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Prece - seus três tipos

Em razão de sua finalidade, quais são os tipos de prece, segundo a Doutrina Espírita?

   

        Na questão 659, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, temos:  “Pela prece pode-se propor três coisas: louvar, pedir e agradecer.” [1]

         Passemos aos comentários de cada uma dessas possibilidades.

 

LOUVAR

        

         Louvar significa “elogiar, enaltecer; bendizer, exaltar, glorificar.” [2]

         A prece de louvor é o reconhecimento da onipresença e onipotência de Deus, por meio da qual expressamos nosso júbilo pela Sua sabedoria, bondade e justiça.  

         O escritor espírita Rodolfo Calligaris, ao fazer referência à emoção que pode nos ocorrer, principalmente quando atestamos a inteligência e a harmonia que permeiam a criação universal, pondera:

 

         A louvação consiste em exaltar os atributos da Divindade, não, evidentemente, com o propósito de ser-Lhe agradável (...) Há de traduzir-se por um sentimento espontâneo e puro de admiração por Aquele que, em todas as suas manifestações, se revela detentor da perfeição absoluta.  [3]

 

         No entanto, o Espírito Emmanuel ressalta outro aspecto dessa glorificação, notadamente quando estamos enfrentando problemas e desafios; até nesses momentos nos é possível bendizer a Sua bondade e misericórdia para conosco. Assim se expressa:

 

         E forçoso é reconhecer que louvar não é apenas pronunciar votos brilhantes. É também alegrar-se em pleno combate para a vitória do bem, agradecendo ao Senhor os motivos de sacrifício e sofrimento, buscando as vantagens que a adversidade e o trabalho nos trouxeram ao espírito. [4]

 

         E, como exemplo de uma prece de louvor, temos:

 

(Obs. Como trata-se de uma prece extensa, transcrevemos apenas os tópicos que exemplificam nossos comentários sobre o louvor. Deixamos de usar o sinal (...), para que sua leitura não se torne cansativa e desinteressante. Entretanto, é uma prece que carece de ser consultada no livro indicado)

 

Senhor da Vida

Abençoa-nos o propósito

De penetrar o caminho da Luz!...

Herdeiros da imortalidade,

Buscamos-Te as fontes eternas,

Esperando, confiantes, em Tua misericórdia.

De nós mesmos, Senhor, nada podemos.

Sem Ti, somos frondes decepadas.

Unidos, no entanto, ao Teu Amor,

Somos continuadores gloriosos

De Tua Criação Interminável.

E, antes de tudo,

Louvamos-Te a grandeza

Que não nos oprime a pequenez...

Dilata-nos a percepção diante da vida,

Abre-nos os olhos

Para que divisemos Tua glória sem fim!...

Desperta-nos docemente o ouvido,

A fim de percebermos o cântico

De tua sublime eternidade.

Fecunda-nos o solo interior,

Para que os divinos germens não pereçam.

Sabemos, Pai,

Que o suor do trabalho

E a lágrima da redenção

Constituem adubo generoso

À floração de nossas sementeiras!

Acorda-nos, Senhor da Vida,

Para a luz das oportunidades presentes;

Reveste-nos o coração

Com a tua serenidade paternal.

Poderoso Senhor,

Ampara-nos a fragilidade,

Corrige-nos os erros,

Esclarece-nos a ignorância,

Acolhe-nos em Teu amoroso regaço.

Cumpram-se, Pai Amado,

Os Teus desígnios soberanos,

Agora e sempre,

Assim seja! [5]

 

PEDIR

 

         Pedir é “solicitar; implorar, suplicar.” [2]

         O pedido de algum benefício ou graça quase sempre está implícito em uma oração, seja ele referente às necessidades morais, espirituais e até mesmo materiais daquele que ora ou por quem se ora.  

         Todavia, muitos acreditam que a oração tem a função básica de mudar o rumo das circunstâncias ou das ocorrências, ao sabor de sua vontade. Outros, em suas petições, também fazem uso da barganha: em troca das vantagens que desejam auferir, se comprometem a fazer algum tipo de sacrifício: são as promessas.

         Diante dessa realidade, Allan Kardec, na questão 663 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, questiona: “As preces que fazemos por nós mesmos podem mudar a natureza de nossas provas e desviar-lhes o curso?”

         E como resposta dos Espíritos Superiores, obteve:

 

            A prece chama para vós os bons Espíritos, que vos dão forças para suportá-las com coragem, e elas vos parecem menos duras. Já o dissemos: a prece não é jamais inútil, quando ela é bem feita, porque fortalece, e é já um grande resultado. Ajuda-te e o Céu te ajudará, sabes isso. Aliás, Deus não pode mudar a ordem da Natureza ao capricho de cada um, porque aquilo que é um grande mal sob o vosso ponto de vista mesquinho e a vossa vida efêmera, é, frequentemente, um grande bem na ordem geral do Universo. (...) Credes que Deus não vos tem escutado porque Ele não fez um milagre por vós, enquanto ele vos assiste por meios tão naturais que vos parecem o efeito do acaso ou da força das coisas. Frequentemente, ou o mais frequentemente mesmo, ele vos suscita o pensamento necessário para vos tirar da confusão. [1]

 

         Com a Doutrina Espírita, podemos aprender que a oração não suprime, de imediato, nossos problemas e dificuldades, mas renova-nos o ânimo e a disposição, a fim de que venhamos ou a sublimar ou a remover tudo aquilo que nos angustia e faz sofrer. Assim, a prece tem o poder de nos fortalecer para os desafios cotidianos, porque, na realidade, eles são os impulsionadores do nosso aprendizado e amadurecimento pessoal.

         Enfáticas as palavras do Espírito André Luiz:

 

            Orar constitui a fórmula básica da renovação íntima, pela qual o divino entendimento desce do Coração da Vida para a vida do coração.

            Semelhante atitude da alma, porém, não deve, em tempo algum, resumir-se simplesmente pedir algo ao Suprimento Divino, mas pedir, acima de tudo, a compreensão quanto ao plano da Sabedoria Infinita, traçado para o seu próprio aperfeiçoamento, de maneira a aproveitar o ensejo de trabalho e serviço no bem do todos, que vem a ser o bem de si mesma. [6]

 

         Diante dessas considerações, podemos afirmar que a melhor prece é aquela que, ao nos revigorar emocionalmente, amplia nosso discernimento perante as próprias escolhas e decisões.

         Porém, o Espírito Emmanuel nos incentiva a atentar para outros efeitos da oração, nem sempre tão perceptíveis:

 

            Ora e pede. Em seguida, presta atenção. Algo virá por alguém ou por intermédio de alguma coisa, doando-te, na essência, as informações ou os avisos que solicites.

            Em muitas circunstâncias, a advertência ou o conselho, a frase orientadora ou a palavra de bênção te alcançarão a alma no verbo de um amigo, na página de um livro, numa nota singela da imprensa ou até mesmo num simples cartaz que te cruze o caminho. Mais que isso. As respostas do Senhor às tuas necessidades e petições, muitas vezes te buscam através dos próprios sentimentos a te subirem do coração ao cérebro ou dos próprios raciocínios e a descerem do cérebro ao coração.

            (...) Recordemos o Divino Mestre e estejamos convencidos de que Deus nos atende constantemente; imprescindível, entretanto, fazer silêncio no mundo de nós mesmos, esquecendo exigências e desejos, não só para ouvirmos as respostas de Deus, mas também a fim de aceitá-las, reconhecendo que as respostas do Alto são sempre em nosso favor, conquanto, às vezes, de momento, pareçam contra nós.  [7]

 

         E o apóstolo Paulo, em sua epístola aos Filipenses (4:6-7), nos estimula a essa receptividade perante a Sabedoria Divina, sobretudo para um melhor controle de nossas aflições:

 

         Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. [8]

 

         Com relação à oração que fazemos em benefício de outrem, as orientações dos Espíritos Superiores e de Kardec, na questão 662 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, consistem no seguinte:

 

            O Espírito daquele que ora age por sua vontade de fazer o bem. Pela prece, ele atrai para si os bons Espíritos que se associam ao bem que quer fazer.

            (...) Possuímos, em nós mesmos, pelo pensamento e a vontade, um poder de ação que se estende além dos limites de nossa esfera corporal. A prece por outros é um ato dessa vontade. Se ela é ardente e sincera, pode chamar em sua ajuda os bons Espíritos, a fim de sugerir-lhe bons pensamentos e dar-lhe a força do corpo e da alma de que necessita. Mas aí ainda a prece do coração é fundamental, a dos lábios não é nada. [1]

 

         Os mais profundos e sentidos votos de melhoria que possamos direcionar a uma pessoa têm o poder de envolvê-la em harmoniosas vibrações. Mas não podemos garantir que essa pessoa terá sua realidade modificada, por mais fervorosas que sejam as nossas intenções. E por quê? Porque não conhecemos a real extensão dos seus compromissos cármicos! Nem sempre aquilo que julgamos ser o melhor para uma pessoa é o que, efetivamente, ela necessita para a sua evolução. Às vezes, uma doença ou um problema são imprescindíveis para o resgate de erros passados ou para que ela consiga repensar o próprio comportamento. Mas, nada nos impede que envolvê-la em energias que lhe proporcionem a devida força moral para o tentame. Esse tipo de prece também recebe o nome de “oração intercessória”.

         Nesse sentido, o Espírito Joanna de Ângelis ensina:

 

            O amor, pelas suas incomuns possibilidades, emite ondas de sucesso e de saúde, de fraternidade e de alegria que alcançam todos aqueles em favor dos quais é enviado.

            Nesse sentido, a oração intercessória é portadora de incomparável poder vibratório que penetra o ser objetivado enquanto vitaliza o dínamo emissor (a pessoa que ora), estabelecendo uma comunhão específica de vibrações que sustentam a vida e renovam a capacidade interior para o crescimento indispensável e a consequente conquista da paz.

            Quando alguém ama potencializa-se de vigor espiritual e, cultivando a oração, que é concentração de energia criadora, consegue distribuí-la em alta potência, que sempre realiza o seu mister. [9]

 

AGRADECER

 

         Agradecer é reconhecer um benefício recebido. Assim, esse tipo de oração nos permite expressar gratidão ao Alto, pelas inúmeras bênçãos de que somos alvos: a vida, a saúde, a família, os amigos, o trabalho.

         Entretanto, como muitos deixam de reconhecer e dar o devido valor a tudo isso, em razão de se encontrarem fortemente envolvidos nos difíceis e negativos aspectos da existência humana!

         A seguir, transcrevemos um exemplo de prece de agradecimento, em que o louvor também se encontra presente.

 

Senhor Jesus! Pela benção

De tua doutrina santa

Que nos apoia e levanta

Para o Reino de Amor,

Pela paz que nos ofertas,

Pela esperança divina

Que nos conforta e ilumina,

Bendito sejas, Senhor!

 

Pela carícia do lar,

– Doce templo de carinho –

Que nos concedes por ninho,

Céu na Terra campo em flor.

Pelo aconchego suave

Da feição que nos aquece,

Pelo consolo da prece,

Bendito sejas, Senhor!...

 

Pelo tesouro sublime

De graças da natureza,

Pela serena beleza,

Do mar, do jardim, da cor,

Pela fonte que entretece

Poemas de melodia,

Pelo pão de cada dia,

Bendito sejas, Senhor!

 

Em tudo o que nos reserves

À luz de cada momento,

O nosso agradecimento

Por tudo, seja o que for...

Vivemos, Jesus Querido,

Na alegria de encontrar-Te,

Cantando por toda parte,

Bendito sejas, Senhor! ...

                                                                           João de Deus [10]

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS  

 

 

[1] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

 

[2] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

 

[3] CALLIGARIS, Rodolfo. As leis morais: segundo a filosofia espírita. 6. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1991. Cap. “A prece”. p. 50.

 

[4] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Pão nosso. 17. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

 

[5] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). No mundo maior. 20. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 1. p. 21-22.

 

[6] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (psicografado por).  Mecanismos da mediunidade. 16. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1998. Cap. 25. p. 179.

 

[7] ESPÍRITOS diversos; XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). À luz da oração: Antologia de Preces Mediúnicas. 5. ed. Matão: Casa Editora O Clarim, 1993. Cap. “Oração e atenção”. p. 168-169.

 

[8] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[9] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Lições para a felicidade. 3. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada. 2003. Cap. 14. p. 85-86.

 

[10] ESPÍRITOS diversos; XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). À luz da oração: Antologia de Preces Mediúnicas. 5. ed. Matão: Casa Editora O Clarim, 1993. Cap. “Prece de gratidão”. p. 126-127.