"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Espíritos

Por que muitos ainda não acreditam na existência dos espíritos? Se existem, é natural, então, que nos comuniquemos com eles? Qualquer pessoa pode manter contato com os espíritos, ou esse intercâmbio é somente realizado por indivíduos que possuem uma faculdade própria para isso? O que pensar sobre a proibição de Moisés quanto à comunicação com os "mortos"? Ainda continua vigente? Como ele poderia proibir algo que não fosse possível?

 

         Por que muitos desacreditam da existência dos espíritos?

         Quanto à incerteza que ainda persiste sobre a presença, no universo, de seres invisíveis aos olhos humanos, Allan Kardec, em O LIVRO DOS MÉDIUNS, esclarece que

 

 a dúvida concernente à existência dos Espíritos tem por causa primeira a ignorância da sua verdadeira natureza, pois são imaginados como seres à parte da criação e cuja necessidade não está demonstrada. [1]

            Desde o momento que se admite a existência da alma e sua individualidade após a morte, é preciso admitir também: 1º, que ela é de uma natureza diferente da do corpo, uma vez que separada dele não lhe tem mais as propriedades; 2º, que goza da consciência de si mesma. (...) Isto admitido, a alma vai para alguma parte; em que se torna ela e para onde vai? [2]

 

         A localização dos espíritos não está circunscrita a um determinado local, como admitem certas religiões, dizendo que estão no céu, no inferno ou no purgatório, mas esses seres se encontram no

 

espaço universal: é todo um mundo invisível no meio do qual vivemos, que nos rodeia e nos acotovela sem cessar. Há nisso uma impossibilidade, alguma coisa que repugne à razão? De modo algum; tudo nos diz, ao contrário, que não pode ser de outra forma.

            (...) Ora, essas almas que povoam o espaço são precisamente o que se chamam Espíritos; os Espíritos não são, pois, outra coisa senão as almas dos homens despojados de seu envoltório corporal. [3] 

 

            Se a realidade espiritual é um fato, é natural, então, que nos comuniquemos com a alma dos “mortos”? Muitos indivíduos até

 

admitem bem a existência da alma e, por conseguinte, a dos Espíritos, mas negam a possibilidade de se comunicar com eles, pela razão, dizem, de que seres imateriais não podem agir sobre a matéria. Esta dúvida está fundada na ignorância da verdadeira natureza dos Espíritos da qual se faz, geralmente, uma ideia muito falsa, porque são imaginados erradamente como seres abstratos, vagos e indefinidos, o que não são.

            Imaginemos primeiro o Espírito em sua união com o corpo; o Espírito é o ser principal, já que é o ser pensante e sobrevivente; o corpo, pois, não é senão um acessório do Espírito, um envoltório, uma veste que ele deixa quando está estragada. Além desse envoltório material, o Espírito tem um segundo, semimaterial, que o une ao primeiro; na morte, o Espírito se despeja deste, mas não do segundo ao qual damos o nome de perispírito. Esse envoltório semimaterial, que afeta a forma humana, constitui para ele um corpo fluídico, vaporoso, mas que, por nos ser invisível em seu estado normal, não deixa de possuir algumas das propriedades da matéria. O Espírito não é, pois, um ponto, uma abstração, mas um ser limitado e circunscrito, ao qual não falta senão ser visível e palpável para se assemelhar aos seres humanos. Por que, pois, não agiria sobre a matéria? Por que seu corpo é fluídico? [4]

            De observação em observação, se chegou a reconhecer que esse ser invisível, ao qual se deu o nome de Espírito, não era senão a alma daqueles que viveram corporalmente, e que a morte despojou do seu grosseiro envoltório visível, não lhes deixando senão um envoltório etéreo, invisível em estado normal. (...) A existência dos seres invisíveis, uma vez constatada, sua ação sobre a matéria resulta da natureza de seu envoltório fluídico; essa ação é inteligente porque, em morrendo, não perderam senão seus corpos, mas conservaram a inteligência que é a sua essência; aí esta a chave de todos esses fenômenos considerados erradamente sobrenaturais. [5]

 

         Para que de fato se possa compreender o mecanismo da comunicação entre os seres encarnados – os que ainda vivem no mundo material – e os desencarnados – os que estão, portanto, vivendo no mundo espiritual –, é imprescindível um estudo bastante sério e acurado quanto à ação destes sobre os fluidos e sobre a matéria. E nos proporcionar esse conhecimento é um dos principais propósitos de O LIVRO DOS MÉDIUNS, bem como também ensinar sobre a mediunidade, porta pela qual esse intercâmbio com os seres “invisíveis” se torna viável.

         Tal obra é o segundo livro da codificação kardeciana, publicado em 1861, e que explica, de maneira bem mais abrangente, a segunda parte de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, intitulada “Mundo espírita ou dos Espíritos”. Assim, nesse livro, podemos encontrar o que chamamos de Espiritismo experimental: a prática, os cuidados e os critérios a serem observados nessa relação com os espíritos desencarnados. 

         Para esclarecer ao leitor sobre o que se pretende alcançar com tal publicação, Allan Kardec, em sua Introdução, ressalta que

 

 as dificuldades e as decepções que se encontram na prática do Espiritismo, têm sua fonte na ignorância dos princípios dessa ciência.

            (...) Enganar-se-iam, igualmente, quem cresse encontrar, nesta obra, uma receita universal e infalível para formar médiuns. Conquanto cada um encerre em si mesmo o germe das qualidades necessárias para tornar-se médium, essas qualidades não existem senão em graus muito diferentes, e seu desenvolvimento provém de causas que não dependem de ninguém fazê-las nascer à vontade

 

         O objetivo desse livro é, então,

 

indicar os meios de desenvolver a faculdade medianímica tanto quanto o permitam as disposições de cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de maneira útil quando a faculdade existe. Mas nisso não está a finalidade única a que nos propusemos.

 

         Essa obra, que atua como uma

 

instrução prática, não se dirige, pois, exclusivamente aos médiuns, mas a todos aqueles que são capazes de ver e de observar os fenômenos espíritas.

            (...) A prática do Espiritismo está sempre cercada de muitas dificuldades, e não está sempre isenta de inconvenientes que só um estudo sério e completo pode prevenir. (...) Nós nos dirigimos às pessoas que veem no Espiritismo uma finalidade séria, que lhe compreendem toda gravidade, e não fazem dele jogo de comunicações com o mundo invisível.

 

         E tal estudo

 

contribuirá, pelo menos o esperamos, para dar ao Espiritismo o caráter sério que é a sua essência, e para evitar de se ver nele um objeto de ocupação frívola e de divertimento.

            (...) Após termos exposto, em O Livro dos Espíritos, a parte filosófica da ciência espírita, damos nesta obra a parte prática para uso daqueles que querem se ocupar das manifestações, seja para si mesmos, seja para se inteirarem dos fenômenos que podem ser chamados a ver. Nela verão os escolhos que se podem encontrar e terão, assim, um meio de evitá-los. Essas duas obras, embora fazendo continuação uma à outra, até certo ponto, são independentes; mas a todo aquele que quiser se ocupar seriamente da coisa, diremos para ler primeiro O Livro dos Espíritos, porque contém os princípios fundamentais, sem os quais certas partes desta obra seriam talvez dificilmente compreendidas. [6]

 

****

 

         Pelos sentidos físicos, tomamos contato com o mundo material e sobre ele agimos. Pelas faculdades mentais, mantemos uma constante relação com o mundo espiritual, e nele também atuamos. Como consequência dessa permuta, todos os indivíduos influenciam os espíritos e, do mesmo modo, recebem a influência deles. Porém, a grande maioria dos encarnados nem percebe esse sutil intercâmbio, que pode lhe ocorrer na forma de intuição, de estados de ânimo, de impulsos e de pressentimentos.

         Todavia, criaturas existem que são capazes de realizar essa conexão, mas de uma maneira bastante marcante e acentuada. A essas pessoas, Allan Kardec denominou de médiuns.

         Médium é uma palavra neutra, porque serve tanto para o gênero masculino como para o feminino. De origem latina, que significa medianeiro, ou o que está no meio. Para a Doutrina Espírita, ele é, portanto, aquele que atua como um intermediário entre o mundo físico e o mundo espiritual. E a mediunidade, por sua vez, é a faculdade que lhe possibilita sentir e perceber a presença dos espíritos, viabilizando um relacionamento mais expressivo.

         Como a própria História pode comprovar, os fenômenos mediúnicos são bastante antigos, porque ocorreram em todos os tempos e com todos os povos. No entanto, eles sempre estiveram mais ligados ao serviço religioso, sendo, em algumas culturas, realizados apenas por indivíduos considerados “iniciados”: homens e mulheres especialmente preparados por um treinamento que podia levar dezenas de anos. É o caso das pitonisas, dos oráculos e adivinhos, dos profetas e tantos outros, que chegaram até a serem considerados como seres privilegiados e, e alguns casos, investidos de poderes divinos.

         O motivo de muitas religiões não aceitarem a possibilidade da comunicação espiritual e, com isso, tecerem severas críticas ao Espiritismo, alegam elas, é que essa prática fora proibida por Moisés. Mas, nos tempos bíblicos, quando o intercâmbio mediúnico era utilizado pelo povo hebreu para adivinhações e interesses triviais, tal prática adotava também o ritualismo das muitas religiões politeístas existentes na época, como, por exemplo, a magia e os sacrifícios humanos. Por isso, Moisés, o grande legislador hebreu, ao retirar o povo do Egito, proibiu a prática mediúnica de modo geral, a fim de preservar, entre outras coisas, a unidade do monoteísmo nascente.

         No Velho Testamento, em Deuteronômio (18:10-12), temos:

 

            Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, os lança de diante de ti. [7]

 

         Diante dessas palavras, podemos afirmar que o simples fato de Moisés proibir a consulta aos “mortos”, já demonstra que ela é possível, pois o impossível não precisa ser proibido. Entretanto, sua atitude não foi uma condenação à faculdade mediúnica em si, mas teve por alvo os abusos que aquele povo, de modo ainda tão insipiente, praticava. Particularmente, Moisés continuou usando seu potencial mediúnico para receber as instruções que os bons Espíritos lhe endereçavam no tocante ao fortalecimento da crença monoteísta e à condução do povo hebreu pelo deserto. Para isso, ele foi um profeta – porta voz, o que fala por alguém –, ou, conforme terminologia espírita, um médium.

         Mais tarde, quando Jesus veio a Terra, devido ao fato da humanidade já se encontrar em um estágio um pouco mais avançado, o uso do potencial mediúnico pode ser retomado. Tanto que, no Novo Testamento, a exemplo de Moisés, não há uma única passagem em que tal proibição seja mencionada. Pelo contrário, nessa segunda parte da Bíblia, podemos encontrar várias passagens em que Jesus exemplifica – e até mesmo ensina – a prática mediúnica, quando, por exemplo, cura várias pessoas ou mesmo “expulsa” Espíritos de pessoas que se encontravam seriamente perturbadas.  

         Porém, o exemplo mais contundente da imortalidade da alma e, por sua vez, da possibilidade de comunicação com os já falecidos  encontra-se no Evangelho de Mateus (17:1-3), quando da aparição de Moisés e Elias para Jesus:

 

            Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. [7]

                  

 

MOISÉS E O ESPIRITISMO

 

“O melhor meio de se premunir contra os inconvenientes que pode apresentar a prática do Espiritismo não é o de interditá-lo, mas o de fazê-lo compreendido”. (O LIVRO DOS MÉDIUNS, Capítulo IV, primeira parte, item 46)

 

Nunca será demais comentar-se a proibição que o Deuteronômio estabelece sobre a comunicação com os mortos. Este simples preceito do Antigo Testamento tem criado os maiores entraves para o intercâmbio com os dois mundos. Por causa dele, desconsidera-se toda a fenomenologia mediúnica registrada, em detalhes, nas páginas da Bíblia.

Moisés, sem dúvida, foi um dos maiores médiuns da história da Humanidade. Em permanente contato com os Espíritos, entre os quais destacava-se o próprio Cristo, o grande legislador hebreu foi intermediário dos mais significativos fenômenos de que se tem notícia, desde a recepção do Decálogo no Monte Sinai à sua própria aparição, depois da morte, no Monte Tabor ao lado do profeta Elias, no episódio da Transfiguração.

A vida de Jesus está toda ela assinalada pela presença dos fatos mediúnicos, denotando a ação do Mundo Espiritual sobre o mundo corpóreo.

Baseando-se na milenar proibição de Moisés, muitos religiosos conservadores condenam a prática mediúnica na Doutrina Espírita, ignorando, não raro por conveniência, que são os próprios Espíritos que tomam a iniciativa da comunicação. Como fazer calar a voz do Invisível?! Pode-se queimar médiuns, mas não se queimam Espíritos!...

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, manifestou-se contrário à evocação leviana dos ‘mortos’, chegando mesmo a desaconselhá-la. Entretanto, a Doutrina surgiu, como bem o definiu Sir Arthur Conan Doyle, de uma ‘invasão organizada’ que os Espíritos promoveram sobre a Terra, fazendo mesas girar, dando pancadas nas paredes e no teto das casas, transportando objetos, materializando-se... Foram eles, os Espíritos, que espontaneamente vieram acordar os homens para as realidades da Vida Espiritual.

Os fenômenos de obsessão estão aí para provar, à saciedade, que é impossível por um simples decreto demolir esta Escada de Jacob... A cada passo, Jesus se defronta com possessos de toda espécie que eram, por assim dizer, vampirizados pelos Espíritos que agiam como ‘comensais’ em sua vida física e psíquica.

Seguindo os passos do Dr. Bezerra de Menezes, que publicou a célebre A Loucura sob um Novo Prisma, o nosso confrade recémdesencarnado, Dr. Inácio Ferreira, durante cerca de cinquenta anos efetuou pesquisas no Sanatório Espírita de Uberaba, publicando diversas obras sobre psiquiatria e reencarnação. Isto, evidentemente, sem mencionarmos o esforço de outros grandes pioneiros na área, cujas obras permanecem inéditas para a grande maioria.

Kardec, através desse livro monumental que é O Livro dos Médiuns, suspendeu o véu que nos toldava a visão do Invisível e pavimentou caminhos a fim de que, através da mediunidade, nos movimentássemos com segurança.

Ao invés de hospitais psiquiátricos, as chamadas reuniões de desobsessão se multiplicaram nos grupos espíritas e o intercâmbio passou a ser controlado sem maiores problemas, com os Espíritos infelizes sendo evangelizados e com os médiuns sendo esclarecidos quanto à sua condição.

Desde que o Codificador descortinou para a Humanidade os caminhos de além túmulo, os Espíritos não mais puderam agir às ocultas quanto agiam, porque foram ‘descobertos’ em seu próprio domicílio. Tiveram que atuar de forma mais sorrateira, convictos de que, doravante, não poderiam mais contar com o anonimato que lhes garantia imunidade. Referimo-nos, é claro, aos Espíritos que se compraziam nos processos de obsessão.

Os próprios medianeiros foram instruídos a respeito da problemática da sintonia, aprendendo a direcionar essa ‘antena’ para os sinais positivos emitidos pelos Espíritos mais esclarecidos, transformando-se em canais receptores de mensagens de ordem superior.

Façamos, ao final destes apontamentos, uma consideração que julgamos oportuna: a prática do Espiritismo inclui a prática da mediunidade, mas a prática da mediunidade em si não tem nada a ver com a prática do Espiritismo, cuja finalidade precípua é reviver o Cristianismo. [8]

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

 

[1] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 36. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Cap. I. Item 1. p. 12.

 

[2] Idem. Item 2. p. 12-13.

 

[3] Idem. Item 2. p. 13-14.

 

[4] Idem. Item 3. p. 15.

 

[5] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 36. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Cap. II. Item 9. p. 21.

 

[6] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 36. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Introdução. p. 7-10.

 

[7] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[8] FERNANDES, Odilon (espírito); BACCELLI, Carlos A. (psicografado por). Mediunidade e evangelho. 3. ed. Araras, SP: IDE Editora. 1995. Cap. 5. p. 25-28.

 

OLIVEIRA, Therezinha. Iniciação ao espiritismo. 9. ed. Campinas: Centro Espírita “Allan Kardec” – Dep. Editorial, 2001.