"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Cooperação

O que é cooperar? Necessitamos uns dos outros? Somos todos interdependentes? O que pode impedir a cooperação entre as pessoas? Cooperar com uma pessoa, em determinadas circunstâncias, significa assumir sua vida? E se precisarmos de cooperação e ninguém se dispuser a nos ajudar?

 

       Somos todos somos sensíveis a atitudes de gentileza. Quando nos tratam com delicadeza, consideração e cortesia, obviamente que nos sentimos bem e respeitados pelo que somos.

         Mas, são em nossas tarefas cotidianas – principalmente quando elas se apresentam em número muito maior do que a nossa capacidade de absorção e devida solução –, que a ajuda alheia pode facilitar sobremaneira nossa situação, notadamente na atualidade, quando a sensação de tempo disponível está se encurtando cada vez mais.  

         Sendo assim, a cooperação é fator essencial para a harmonia e o bem estar de todos. E cooperar é se interessar pela pessoa do outro, por suas dificuldades, seus afazeres e necessidades; é colaborar com alguém – ou seja, fazer junto – para que ele possa produzir muito mais do que se fizesse sozinho; é prestar favores, ainda que pequenos, exercitando nossa cordialidade; é partilhar nossa energia, qualquer que seja a forma, ou um sorriso, um pensamento; enfim, é perceber o quanto nossa disposição pode facilitar a vida de alguém, trazer-lhe satisfação, nos aproximar ainda mais, criando um vínculo afetivo cada vez mais consistente.

         Se desejamos a satisfação em nossos relacionamentos, é imprescindível nos comportarmos de maneira mais amorosa e tolerante, para que os frequentes confrontos e  divergências deixem de existir. Quando estamos verdadeiramente dispostos a unir nossas forças para atingir um objetivo ou a concretização de um trabalho, deixa de ser importante, por exemplo, a definição de quem é o melhor ou de quem manda mais. Se a colaboração inexiste nos relacionamentos, decerto que as dificuldades se tornam mais difíceis de serem enfrentadas. Sem o amparo alheio, a força de cada um tem de se desdobrar ao máximo para que o desânimo e a ineficiência não prevaleçam.

         Carlos Torres Pastorino enfatiza:

 

         O homem não pode viver isolado.

            Lembre-se de que cada companheiro de jornada é um amigo que o ajuda e a quem você precisa também ajudar.

            A cooperação existe entre todas as coisas criadas.

            Procure você também cooperar com tudo e com todos, em benefício da própria Terra que o acolhe bondosamente, permitindo sua evolução.

            Ajude sempre, e jamais desanime. [1]

 

         O comportamento de cooperação e a boa vontade estão intrinsecamente vinculados à noção de interdependência entre as pessoas. E é assim que vivemos: necessitando uns dos outros. Pelo fato de estarmos todos interligados, somos uma só família perante as leis universais, e o dever da assistência mútua tende a nos propiciar o prazer das amizades e das manifestações de carinho e de amor em suas mais variadas formas.

         Jamais conseguiremos crescer sozinhos. Carecemos de nossos intercâmbios e interações, porque forças unidas sempre criam mais e mais possibilidades. 

        

****

 

         Existem vários comportamentos que impedem a cooperação entre as pessoas, e um deles é a preguiça, que pode ser definida como “pouca disposição para o trabalho; demora ou lentidão em fazer qualquer coisa; morosidade, negligência.” [2]

         Na realidade, tal indisposição é uma das características do indivíduo de personalidade rebelde, em virtude do seu desinteresse para com as próprias responsabilidades. E nos seus mais variados graus, essa negligência se manifesta desde a completa repulsa pelo trabalho até a lentidão para a sua execução. 

         O preguiçoso busca a tranquilidade no pensar e no agir – cultivando o ócio como fonte de prazer –, porém, em prejuízo daqueles que com ele convivem, sobrecarregando-os com afazeres que poderiam ser compartilhados. Obviamente que a família e aqueles que dele dependem podem passar por sérios problemas, em virtude de ele estar sempre procurando se safar das naturais solicitações do dia a dia.

         No entanto, perfeitamente naturais são os nossos momentos de preguiça, descanso e relaxamento. O corpo necessita repor suas energias, a mente precisa de ocasiões em que nada lhe ocupe. Mas o mal é tornar este comportamento um hábito. É de suma importância, então, a renovação de nossos hábitos e costumes, porque sair do comodismo requer persistência e boa vontade.

         Do Espírito Joanna de Ângelis, temos:

 

            Não te agastes com os ociosos, que nada fazem nem te irrites com os incompreensíveis, que te dificultam a marcha.

            Produze a tua quota, mesmo que ela seja a humilde cooperação da gentileza, da paciência, do tijolo modesto ou da colher de cimento da boa vontade, fazendo a tua parte.

            Insta contigo próprio a fim de executares o serviço edificante.

            Exige-te mais esforço.

            Concede-te a oportunidade feliz.

            Pondera acuradamente e resolve-te superar quaisquer limites, sejam dificuldades, incapacidade, problemas...

            Acima de tudo lembra-te, também, de reedificar-te interiormente consoante o ensino do Senhor, facultando que nasça do ‘homem velho’, que todos somos, acostumados aos erros e gravames, o ‘homem novo’, idealista, sonhador do bem, colocado a posto para o amanhã feliz.  [3]

 

****

 

         Todavia, a cooperação carece de bom senso, discernimento e moderação. Para que possamos ser verdadeiramente úteis aos demais, fundamental a compreensão dos processos de colaboração e das implicações de nossa ajuda. Nesse sentido, o Espírito André Luiz explica: “Ajudar (...) é amparar, substancialmente, sem pruridos de personalismo (sem alarde, orgulho e ostentação), para que o beneficiado cresça, se ilumine e seja feliz por si mesmo.”  [4]

         Por maior que seja a boa intenção, a interferência na vida alheia é uma das coisas mais desagradáveis e, dependendo do seu grau, tende a atrapalhar.

         A desejável cooperação é aquela que colabora, mas sem intervir na maneira de pensar e agir dos outros, pois não impõe pontos de vista e nem faz exigências. É nosso dever ajudar as pessoas, mas esse auxílio tem de levar em consideração a real necessidade alheia. Fazer aos outros, pura e simplesmente, o que julgamos ser o melhor e mais correto, é menosprezar a condição em que se encontram, desrespeitando, com isso, o seu livre arbítrio e a sua individualidade.

         Cooperar com uma pessoa, socorrê-la em suas necessidades, bem como tomar determinadas providências em virtude de sua impossibilidade, não significa assumir sua vida, acreditando que sem nós ela não conseguirá se safar das próprias dificuldades. Se temos por hábito agir dessa maneira, podemos estar manifestando orgulho e ostentação na forma de prestar nossos auxílios.

         E se precisarmos de cooperação e ninguém se dispuser a nos ajudar, devemos também adotar o mesmo comportamento de desinteresse para com os outros?

         Na obra AVE LUZ, estas são as palavras de Jesus, pela interpretação do Espírito Shaolim:

 

            Se cada um contribuísse na área a que foi chamado a servir, não existiria carência de nada na Terra, e a felicidade iria se estabelecer em tudo e em todos. Se esperas que o teu companheiro comece a contribuir para que possas igualmente ajudar, estás perdendo tempo, numa caridade revestida de imposição. Perdes o endereço da verdadeira fraternidade. Se podes, faze, sem cogitar se os outros estão fazendo ou podem fazer. Chegando a tua hora, aproveita a tua oportunidade, pois ela vem e passa.  [5]

       

 

ALGO MAIS

 

Um crente sincero na Bondade do Céu, dese­jando aprender como colaborar na construção do Reino de Deus, pediu, certo dia, ao Senhor a graça de compreender os Propósitos Divinos e saiu para o campo.

De início, encontrou-se com o Vento que cantava e o Vento lhe disse:

— Deus mandou que eu ajudasse as sementei­ras e varresse os caminhos, mas eu gosto também de cantar, embalando os doentes e as criancinhas.

Em seguida, o devoto surpreendeu uma Flor que inundava o ar de perfume, e a Flor lhe contou:

— Minha missão é preparar o fruto; entretan­to, produzo também o aroma que perfuma até mes­mo os lugares mais impuros.

Logo após, o homem estacou ao pé de grande Árvore, que protegia um poço d’água, cheio de rãs, e a Árvore lhe falou:

- Confiou-me o Senhor a tarefa de auxiliar o homem; contudo, creio que devo amparar igualmen­te as fontes, os pássaros e os animais.

O visitante fixou os feios batráquios e fez um gesto de repulsa, mas a Árvore continuou:

— Estas rãs são boas amigas. Hoje posso aju­dá-las, mas depois serei ajudada por elas, na de­fesa de minhas próprias raízes, contra os vermes da destruição e da morte.

O devoto compreen­deu o ensinamento e se­guiu adiante, atingindo uma grande cerâmica.

Acariciou o barro que estava sobre a mesa e o Barro lhe disse:

- Meu trabalho é o de garantir o solo firme, mas obedeço ao oleiro e procuro ajudar na residência do homem, dando forma a tijolos, telhas e vasos.

Então, o devoto re­gressou ao lar e com­preendeu que para servir na edificação do Reino de Deus é preciso ajudar aos outros, sempre mais, e rea­lizar, cada dia, algo mais do que seja justo fazer.  [6]

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

 

 

[1] PASTORINO, Carlos Torres. Minutos de sabedoria. 41. ed. Petrópolis: Editora Vozes. Cap. 165.

 

[2] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

 

[3] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Convites da vida. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada. Cap.15.

 

[4] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Agenda cristã. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 28.

 

[5] SHAOLIN (espírito); MAIA, João Nunes (psicografado por). Ave luz. 10. ed. Belo Horizonte, MG: Editora Espírita Cristã Fonte Viva, 1999. Capítulo “Contribuição”. p. 123.

 

[6] MEIMEI (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Pai nosso. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap.13.