"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Autoridade

O que é a autoridade? Existe diferença entre ela e o autoritarismo? Qual foi a lição de Jesus sobre o assunto? A autoridade verdadeiramente nos pertence? Será cobrado de nós, um dia, o uso que fazemos do nosso poder perante os demais?

 

         Uma das definições de autoridade é: “Direito ou poder de mandar”. [1]

         Todo agrupamento social – uma nação, cidade, empresa, um grupo familiar, a própria Casa Espírita... – necessita de um líder que exerça o poder com a finalidade de organizá-lo, dirigi-lo e mantê-lo.

         Porém, não é tão raro que o direito de mandar fascine aquele que o possui, distorcendo sua capacidade de pensar e agir, porque esse deslumbre faz com que o “poderoso”, intimamente, se coloque num pedestal e olhe, de cima para baixo, todos aqueles que dele dependem.

         Analisando, historicamente, o uso da autoridade, por muito tempo prevaleceu na sociedade humana - salvo algumas exceções atuais - o exercício do poder contra a igualdade e a justiça, para a subordinação de indivíduos e povos. Ocorreram, então, os mais variados desmandos através da tirania e da opressão.  E isso porque as diretrizes sociais eram determinadas pelo indivíduo ou pelo povo mais forte, que estabelecia as regras em função dos próprios interesses. Aos menos fortes, não restava outra alternativa senão obedecer. O que vigorava, portanto, era a autoridade caracterizada pelo comando absoluto e a obediência irrestrita. Quem liderava não prestava contas senão aos seus superiores, se os tivesse, e sempre tinha a razão perante os seus inferiores. Era o autoritarismo, o despotismo ou o absolutismo.

         O inconveniente, porém, é que, ainda hoje, prevalece esse tipo de comportamento em certas criaturas. Em seu desequilíbrio e “sede” de poder, impõem ordens e regras que, obedecidas passivamente, lhes trazem um enorme prazer e satisfação. Mas, em virtude do medo de perderem o respeito, acreditam que precisam ser temidas. E, para sustentarem o seu status de “poderosa”, costumam adotar uma postura fria, rígida, arrogante, altiva, ameaçadora, intransigente, intimidativa, enfim, de total desrespeito à pessoa do outro.

         Compreensível se torna, assim, a diferença entre a autoridade e o autoritarismo. A autoridade é a liderança necessária, na qual se exerce o poder com o objetivo de gerenciar – organizar, conduzir – o desenvolvimento e a harmonia do grupo. O autoritarismo se caracteriza pela tirania e opressão, em que se pratica o comando com fins egoísticos.

 

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         Na questão 684 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Allan Kardec pergunta: “Que se deve pensar dos que abusam de sua autoridade, impondo a seus inferiores excessivo trabalho (afazeres, tarefas e exigências)?”  

         Resposta: “Isso é uma das piores ações. Todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim fazendo, transgride a lei de Deus.” [2] 

         E essa subordinação da autoridade terrestre perante uma autoridade maior encontra-se enfaticamente ilustrada por uma passagem da vida do Cristo (Jo 19:10-11).

         Diante de seu julgamento, Pilatos diz a Jesus: "Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para crucificar?". E o Cristo lhe responde: "Nenhuma autoridade teríeis sobre mim, se de cima não te fosse dada.” [3]

         O próprio conceito de autoridade diverge nos dois casos. Para Pilatos e para o mundo, a autoridade é o Estado, o Chefe, o grupo que detém a força, faz as leis e impõe a ordem social. Mas, para Jesus, esta é uma autoridade secundária, porque a que comanda realmente é a autoridade da Lei de Deus, à qual todos estão igualmente sujeitos e que se serve da autoridade humana como um instrumento. Ou seja, a verdadeira autoridade não pertence aos indivíduos.

         Elucida o Espírito Emmanuel: “É justo, porém, salientar que a fortuna ou a autoridade são bens que detemos provisoriamente na marcha comum e que, nos fundamentos substanciais da vida, não nos pertencem.”  [4]  

         A autoridade de Pilatos realmente era grande. O destino dos homens, da região sob sua jurisdição, estava de fato em suas mãos. Ele tinha pleno poder não apenas para governar a Judéia, mas para atuar como um grande pretor, ou seja, um juiz que julgava os homens segundo o direito romano. Para pequenas causas, designava outros pretores, mas as grandes eram julgadas por ele mesmo. No caso em questão, esperava intimidar o condenado com sua autoridade. Porém, Jesus o chocou, afirmando que esta não vinha de Roma, mas do Alto. O Cristo até reconheceu a autoridade terrena de Pilatos, mas não deixou de ressaltar que existe um poder no universo do qual emanam todos os outros poderes.

         Sendo assim, podemos afirmar que, através de Jesus, Deus estava ensinando aos homens que o poder mundano vale bem pouco diante de Suas determinações, e que o mais simples e humilde dos homens pode ser aquele de que Ele se utiliza como Seu mensageiro.

         Portanto, perante as leis de Deus, o poder terrestre, seja ele exercido na área que for, é temporariamente permitido. E o que é permitido, um dia, será cobrado. É este o ensinamento que nos traz o EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO:

 

         A autoridade, da mesma forma que a fortuna, é uma delegação da qual serão pedidas contas àquele que dela se acha investido; não creiais que lhe ela lhe seja ela dada para lhe proporcionar o vão prazer de comandar; nem, assim como o creem falsamente a maioria dos poderosos da Terra, como um direito, uma propriedade. Deus, entretanto, lhes prova suficientemente que não é nem uma nem outra coisa, uma vez que lhas retira quando isso lhe apraz. Se fosse um privilégio ligado à sua pessoa, ela seria inalienável. Ninguém pode, pois, dizer que uma coisa lhe pertence, quando lhe pode ser tirada sem seu consentimento. Deus dá a autoridade a título de missão ou de prova quando isso lhe convém, e a retira da mesma forma.

            Todo aquele que é depositário da autoridade, de qualquer extensão que ela seja, desde o senhor sobre seu servo até o soberano sobre seu povo, não deve se dissimular que tem encargo de almas; ele responderá pela boa ou má direção que tiver dados aos seus subordinados, e as faltas que estes poderão cometer, os vícios a que serão arrastados, em consequência dessa direção ou de maus exemplos recairão sobre ele, enquanto que recolherá os frutos da sua solicitude para conduzi-los ao bem. .

            (...) Ele (Deus) perguntará àquele que possui uma autoridade qualquer: Que uso fizeste dessa autoridade? Que mal detiveste? Que progresso fizeste? Se eu te dei subordinados não foi para fazer deles escravos da tua vontade, nem os instrumentos dóceis de teus caprichos e de tua cupidez; eu te fiz forte e confiei-te, e te confiei os fracos para os sustentar e os ajudar a subir até mim.

            O superior, que está compenetrado das palavras do Cristo, não despreza a nenhum daqueles que estão abaixo de si, porque sabe que as distinções sociais nada instituem diante de Deus.  [5]

 

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         No entanto, existem muitos tipos de poder: o físico, o político, o financeiro, o intelectual, o pessoal, o espiritual, o moral...

         Embora algumas pessoas o busquem em muitas de suas formas e expressões, Jesus só estava interessado naquele que não se impõe pelas circunstâncias ou à força, mas conquista-se. Esse é o verdadeiro poder, porque perdura.

         E o Cristo possuía um poder pessoal bastante intenso, porque influenciava as pessoas pela sua autoridade moral – porque fundamentada no exemplo – e pela sabedoria de que era portador. Detinha a capacidade única de transmitir confiança, sem ser confundido com um homem arrogante com necessidade de exercer controle sobre os demais.

         O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO nos traz mais essas considerações sobre aquele que usa de sua autoridade para contribuir com o desenvolvimento alheio:

 

            Se a ordem social colocou homens sob a sua dependência, ele os trata com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa de sua autoridade para erguer-lhes o moral e não para os esmagar com o seu orgulho; evita tudo o que poderia tornar a sua posição subalterna mais penosa. [6]

 

         Esse é o uso da autoridade de forma produtiva, eficiente e respeitosa, porque firmeza, disciplina e ordem não são sinônimos de ditadura. A pessoa que comanda – ou manda –, necessita construir a sua autoridade e poder de forma a se tornar, pelo seu modo de ser e de agir, uma positiva referência aos demais. Ou, segundo as palavras do próprio O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO: “O homem não procura se elevar acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se.” [7]

         É fácil de testar se estamos na presença de uma pessoa com verdadeiro poder pessoal. Diante dela não nos sentimos diminuídos ou intimidados, mas à vontade para nos mostrarmos quem realmente somos, no que acreditamos, que sentimentos alimentamos, na certeza de que não seremos criticados ou menosprezados em seu julgamento. Era isso o ocorria com Jesus! Ele não precisava que os outros se diminuíssem em sua presença; pelo contrário, eram as pessoas que se sentiam agraciadas e agradecidas em seu contato com ele.

         Com a Doutrina Espírita, podemos aprender que, perante a eternidade, a única força que tem real valor é a autoridade moral do Espírito, caracterizada pelo equilíbrio e elevação conscienciais. 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

REFERÊNCIAS

[1] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

 

[2] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

 

[3] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

[4] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Fonte viva. 12. ed.  Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 60.

 

[5] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. XVII. Item 9.

 

[6] Idem. Item 3.

 

[7] Idem. Capítulo III. Item 10.

 NAZARETH, Joamar Zanolini. Um desafio chamado família. 1. ed. Araguari, MG: Minas Editora, 1999.

 

Literatura não-espírita

 

CURY, Augusto Jorge. O mestre da vida: análise da inteligência de Cristo. 30. ed. São Paulo: Academia de Inteligência, 2001.