"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Artigos

Responsabilidade

Responsabilidade e conhecimento são diretamente proporcionais? Somos responsáveis pelas circunstâncias que nos ocorrem? Por que temos a tendência de responsabilizar os outros pelos nossos insucessos? É-nos indispensável o desenvolvimento da responsabilidade coletiva?

 

De O LIVRO DOS ESPÍRITOS, temos na questão 258: Quando no estado errante e antes de reencarnar, o Espírito tem a consciência e a previsão das coisas que lhe sucederão durante a vida?”

Resposta: “Ele próprio escolhe o gênero de provas que quer suportar e é nisso que consiste o seu livre arbítrio.”

Sequência da mesma questão: Não é Deus que lhe impõe, então, as tribulações da vida como castigo?”

Resposta: “Nada ocorre sem a permissão de Deus, pois é Ele que estabelece todas as leis que regem o Universo. (...) Dando ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade de seus atos e suas consequências, de maneira que nada entrava o seu futuro; o caminho do bem, como o do mal, lhe está aberto.” 

Questão 871: “Visto que Deus sabe tudo, sabe, igualmente, se um homem deve, ou não, sucumbir em uma prova; por conseguinte, qual a necessidade dessa prova, visto que ela não pode ensinar nada a Deus, que já não saiba, sobre a vida desse homem?”

Resposta: “(...) A prova não tem o objetivo de esclarecer a Deus sobre o mérito desse homem, porque Deus sabe perfeitamente o que ele quer, mas de deixar a este homem toda a responsabilidade de sua ação, visto que tem a liberdade de fazer ou não fazer. Tendo o homem a escolha entre o bem e o mal, a prova tem por efeito colocá-lo em luta com a tentação do mal e deixar-lhe todo o mérito da resistência.” [1]

 

A literatura espírita ensina que, antes de o espírito renascer – ou seja, de assumir uma nova encarnação, uma nova vida –, é submetido a um planejamento reencarnatório, no qual ele também pode contribuir na tomada de decisões, se para isso apresentar condições evolutivas, escolhendo a espécie de ocorrências que enfrentará em sua próxima existência. Assim, quanto maior for o progresso de um espírito, mais livre ele é para realizar seu destino, como também mais responsável se torna pelas consequências de suas escolhas e opções. “Quanto mais amplitude em nossos conhecimentos, mais responsabilidade em nossas ações.”  [2]

Com os postulados espíritas, temos que os desafios – ou seja, as provas e as expiações – a serem vivenciados pelo indivíduo não são castigos instituídos por Deus, mas formas educativas possibilitadas por Sua sabedoria, que visam proporcionar-lhe os aprendizados necessários para o atingimento de níveis cada vez mais elevados de evolução.  

Sendo assim, estar no corpo físico não se trata de um acaso, porque a reencarnação é a abençoada escola que nos permite usufruir do mérito dos próprios êxitos e conquistas, quando verdadeiramente nos conscientizamos da responsabilidade, perante nosso crescimento pessoal.

De nós depende a nossa melhoria, pois, com relação a todas as coisas, desfrutamos da liberdade de fazer ou de não fazer aquelas ações.

                                                                                               

***

 

            Todas as nossas aspirações movimentam energias para o bem ou para o mal. Por isso mesmo, a direção delas permanece afeta à nossa responsabilidade.   Analisemos com cuidado a nossa escolha, em qualquer problema ou situação do caminho que nos é dado percorrer, porquanto o nosso pensamento voará, diante de nós, atraindo e formando a realização que nos propomos atingir e, em qualquer setor da existência, a vida responde, segundo a nossa solicitação.  [3]

 

Com essas palavras, fica evidente que a pessoa responsável por nós... somos nós mesmos. Somos, em síntese, causa e efeito das escolhas e atitudes!

É, portanto, é imprescindível o desenvolvimento da responsabilidade no pensar, sentir e agir, porque o encargo do livre arbítrio é examinar e discernir o que se deve e se pode fazer, daquilo que se pode, mas não se deve realizar.

Daí a necessidade de se conduzir o comportamento de modo a não assumir compromissos caracterizados pelo desvio de responsabilidade, porque, no âmbito da lei de ação e reação, a criatura humana é responsável – por conta de suas ações – pelas reações que colhe a partir de seus atos.

 

            À medida que se nos aclara a consciência e se nos engrandece a noção de responsabilidade, reconhecemos que a nossa dignificação espiritual é serviço intransferível. Devemos a nós mesmos quanto nos sucede em matéria de bem ou de mal. [4]

 

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No entanto, há no ser humano um forte mecanismo de defesa – ou seja, de autoproteção – que o leva a projetar para o exterior as responsabilidades que lhe competem, principalmente quando ele se encontra frustrado e insatisfeito. Com isso, passa a culpar as outras pessoas e/ou as circunstâncias, por tudo aquilo que em sua vida não o está agradando ou não está dando certo para ele. 

E essa tendência para a acusação externa é um procedimento bastante antigo. Haja vista que muitos de nós crescemos sem aprender a examinar o próprio comportamento. Sabemos, sim, justificar nossos erros e fracassos e nos lamentar, acreditando que a vida é injusta, que fomos desamparados por Deus, que nascemos com uma má estrela... No entanto, quando adotamos essa postura de “vítima”, estamos, na verdade, nos deixando conduzir pela impotência, pela  insegurança, pela fragilidade.

O Espírito Joanna de Ângelis enfaticamente alerta:

 

            A ninguém transfiras a causa dos teus desaires, dos teus insucessos. Dá-te conta deles e recomeça a ação transformadora.

            Mesmo que não o queiras, serás sempre responsável pelos efeitos dos teus atos.

            Colherás conforme semeares. [5]

 

Por outro lado, ao nos culparmos pelos erros e fracassos, estamos nos punindo de forma extremamente castradora, infeliz e improdutiva!

Da mesma forma que culpar os demais não melhora ou resolve nossos problemas, essa reação masoquista e paralisante que a culpa gera, também não nos permite analisar as situações com o devido discernimento e enfrentar de maneira construtiva as consequências de nossas escolhas e atitudes, mesmo que elas tenham sido indevidas!

Podemos afirmar que o sentimento de culpa dificulta e atrasa a possibilidade de sermos felizes, de obtermos êxito e sucesso, de não aprender com os próprios erros e, principalmente, de perder um tempo precioso na estruturação de uma vida mais satisfatória e feliz.

 

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            “A responsabilidade pelo aperfeiçoamento do mundo compete-nos a todos.” [6]

 

A humanidade se desenvolve graças às criaturas responsáveis, que trabalham continuamente em prol do bom, do belo, do ideal, onde quer que se encontrem. E, muitos deles, se destacam pela grandeza das suas realizações, frequentemente alicerçadas em testemunhos de grande sacrifício pessoal.

Quem tem a consciência desperta para essa responsabilidade coletiva, tem certeza da importância de sua colaboração na edificação de um mundo melhor, sentindo-se uno com o universo, com a natureza, com a vida, com as pessoas e com Deus.

E com o intuito de nos estimular ao desenvolvimento dessa consciência maior, o escritor Carlos Torres Pastorino nos aconselha:

 

            Desperte para a vida.

            Medite em suas responsabilidades perante a humanidade e perante Deus.

            De você dependem criaturas que o cercam, na família, no trabalho, na sociedade.

            Não fuja à responsabilidade que você assumiu: realize seu trabalho com amor, produzindo o melhor que puder, e o máximo que suas forças o permitirem.

            Em suas mãos está uma parte do futuro da humanidade. [7]

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br

 

Referências

 

[1] KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

 

[2] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Ação e Reação. 21. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

 

[3] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Entre a terra e o céu. 17. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.  Cap. 1: 11.

 

[4] Idem. Cap. 33: 210.

 

[5] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Jesus e atualidade. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada. Cap. 12.

 

[6] ANDRÉ LUIZ (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Libertação. 23. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2000. Cap. 3: 39.

 

[7] PASTORINO, Carlos Torres. Minutos de sabedoria. Petrópolis, RJ: Editora Vozes.

 

 

NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz de. Psicologia do espírito. 1. ed. Salvador, BA: Fundação Lar Harmonia, 2000.

 

_______. Psicologia do evangelho. 2. ed. Salvador, BA: Fundação Lar Harmonia, 2001.

SCHUTEL, Cairbar; GLASER, Abel (psicografado por). Fundamentos da reforma íntima. 3. ed. Matão: Casa Editora O Clarim, 2000.