"Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo." (Cap. VI, item 5)

"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações." (Cap. XVII, item 4)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

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Ambição

O indivíduo ambicioso consegue satisfazer-se com aquilo que já conseguiu conquistar? Segundo o que se encontra registrado nos evangelhos, Jesus condenou a ambição? O desapego do consumismo e do materialismo pode mostrar-se saudável à nossa saúde íntima? Se direcionássemos com maior equilíbrio nossos impulsos ambiciosos, poderiam eles ser-nos bastante úteis?

 

Devendo o homem progredir, os males, aos quais está exposto, são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades, físicas e morais, iniciando-o na pesquisa dos meios para deles subtrair-se. Se ele nada houvesse de temer, nenhuma necessidade o levaria à procura dos meios, seu espírito se entorpeceria na inatividade; não inventaria nada e não descobriria nada.

Mas os mais numerosos males são aqueles que o homem cria para si mesmo, pelos seus próprios vícios, aqueles que provêm de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, de sua cupidez, de seus excessos em todas as coisa; aí está a causa das guerras e das calamidades que elas arrastam,  dissenções, injustiças, opressão do fraco pelo forte, enfim, a maioria das doenças. [1]

 

Como qualquer outro animal, o ser humano luta, com todas as suas forças e possibilidades, pela garantia e manutenção de sua vida. Os inúmeros desafios que necessita enfrentar e superar são, dessa forma, os grandes impulsionadores de suas aptidões e potencialidades. E, à medida que as suas melhores aspirações encontram a devida realização, mais concreta se torna a sua evolução.

 

No entanto, em alguns indivíduos, em virtude de a vida financeira representar o grande propósito de sua existência, seu anseio de crescimento é voltado, quase que exclusivamente, para a conquista de recursos materiais, de poder e de prestígio social. Na ânsia de tudo possuir e impulsionados pelo lema “custe o que custar”, deixam de perceber as injustiças que praticam e as inimizades que angariam.

 

Muito embora seja de capital importância que se busque a estabilidade financeira e o conforto material, e que se aprenda a usar positivamente o dinheiro, ser bem sucedido e feliz nem sempre depende do fato de se conseguir coisas, mas, quantas vezes, em saber desapegar-se delas!

 

Destacando a problemática da ambição, Allan Kardec, em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, anota:

 

As vicissitudes da vida são de duas espécies, ou, se assim se quer, têm fontes bem diferentes que importa distinguir: umas têm sua causa na vida presente, outras, fora dela.

Remontando-se à fonte dos males terrestres, se reconhecerá que muitos são a consequência natural do caráter e da conduta daqueles que o suportam.

Quantos homens caem por suas próprias faltas! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!  [2]

 

****

 

No tocante à ambição, uma realidade necessita ser destacada: o ambicioso raramente se satisfaz com aquilo que já conquistou. Ao contrário, está sempre em busca do que ainda lhe falta, porque o muito tende a tornar-se pouco quando não existem limites para o querer e para o desejar. Entre aqueles que conseguiram riquezas, por exemplo, não lhes bastam os bens acumulados, mas, por pura vaidade, necessitam tornar-se a pessoa mais rica e influente de seu ambiente social.

 

O Espírito Hammed, enfatizando que, nas ambições sem limites, toda frustração decorrente do querer e não poder realizar, inevitavelmente gera conflito íntimo, alerta:

 

Abrir a alma à ambição é fechá-la à serenidade, porquanto a ambição que se alimenta é presa inútil ao coração. Cultivá-la é o mesmo que guardar espinhos na própria intimidade. Diz o ditado popular: “Tudo falta a quem tudo quer”. Em razão disso, o ganancioso não possui bens, mas é dominado por eles. A ambição produz mais insatisfeitos por não conquistarem as coisas, do que saciados com o que possuem. A cobiça não ouve a razão nem o bom senso; nela, o desejo ardente sempre reaparece quando já deveria ter acabado. [3]

 

É a ambição desmedida e o apego às coisas exclusivamente materiais que, de fato, infelicitam o ser humano. Por outro lado, quando aprendemos, enfim, a nos desapegar do consumismo e do materialismo, mais nossa condição íntima nos possibilita uma existência sem grandes sacrifícios e inquietações. Libertar-se, portanto, da ambição de tudo possuir ou de tudo conquistar nos permite um melhor direcionamento da própria energia, sobretudo para as questões do espírito, porque queiramos admitir ou não, somos, de fato, seres espirituais que nos encontramos temporariamente vivendo nesse planeta.

 

Abordando a desarmonia que a ambição desmedida provoca nos relacionamentos, o Espírito Joanna de Angelis enfatiza: 

 

A ânsia, porém, que domina as criaturas humanas, em favor da posse, do destaque político ou social, religioso ou artístico, científico ou cultural, estético ou afetivo, responde por verdadeiros desastres interiores, que se apresentam como depressões, agressividade, violência, lutas contínuas, homicídios e suicídios lamentáveis.

Fossem consideradas essas ambições de maneira tranquila, como sendo recursos utilizáveis quando oportuno, direcionando-as para metas verdadeiras, valeria o esforço envidado.

Nada obstante, em face da impermanência de que se constituem, envolvem o ser humano em uma sofreguidão que o alucina, empurrando-o, de maneira devastadora, a querer mais, a permanecer inviolado, perene conquistador... Apesar disso, a sucessão inevitável dos acontecimentos apresenta sempre os que os substituirão, aqueles que alcançarão o pódio, deixando-os no esquecimento, na sombra...

Inicia a tua experiência de despojamento, abrindo mão de disputas inúteis, muitas vezes, mesquinhas, que arrastam multidões a incessantes disparates. Com essa atitude emocional, superarás questiúnculas e desafios infantis, caprichos e sentimentos de mágoas, de inferioridade ou de superioridade, aos quais te aprisionas por orgulho ou presunção, descobrindo a felicidade de viver com equilíbrio.

(...) Há muita coisa que parece importante somente em decorrência do apego a que se lhe aferram os indivíduos, transformando-se-lhes em escravos espontâneos. [4] 

 

Em suas considerações, de Ângelis sugere que, se utilizássemos com maior equilíbrio nossas ambições, até que elas poderiam ser-nos bastante úteis. Será, então, que além de seu aspecto negativo, a ambição também possui um lado positivo?

 

As pessoas são ambiciosas por vários motivos, alguns dos quais bastante saudáveis e úteis. Tanto é assim que a palavra ambição carrega um duplo sentido. Conforme suas acepções, ela não é somente um forte desejo de poder e de riquezas, de honras e de glórias, mas é também um veemente anseio de se alcançar determinado objetivo. Ainda que muitos indivíduos utilizem os impulsos ambiciosos para a satisfação de seu orgulho e egoísmo, outros, porém, canalizam seus sentimentos para os melhores propósitos e as boas aspirações.

 

Ressaltando os benefícios que a ambição bem direcionada pode proporcionar ao ser humano, o professor e escritor espírita rioclarense Rodolfo Calligaris (1913-1975) defende:

 

A ambição é, e tão cedo não deixará de sê-lo, um dos mais fortes sentimentos humanos, constituindo-se, mesmo, em mola propulsora do progresso.  [5] 

A ambição é um impulso natural que, até certo ponto, nada tem de censurável, constituindo, mesmo, num elemento indispensável ao progresso individual e social.

(...) A ambição deixa, todavia, de ser um bem, e assume a feição de vício detestável, quando excede determinados limites, caindo no exagero. Em outras palavras, quando, ao invés de ser governada por nós, passa a nos governar. [6] 

 

Em seus ensinamentos, Jesus também não condenou a ambição, mas o seu exagero. No Evangelho de Marcos (7:14-22), ao abordar a maneira como devemos interpretar o puro e o impuro, o Cristo teria dito:

 

Nada há no exterior do homem que, penetrando nele, o possa tornar impuro, mas o que sai do homem, isso é o que o torna impuro. (...) Com efeito, é de dentro, do coração dos homens que saem as intenções malignas: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez. [7] 

 

Assim, nobre é a ambição de se fazer o bem, de tornar-se melhor a cada dia, superando, com isso, o orgulho e o egoísmo, de ampliar cada vez mais os próprios conhecimentos e recursos, utilizando-os, especialmente, como fatores de contribuição à melhoria da sociedade. Logo, bem-vinda é a ambição que objetiva a conquista de virtudes e a que busca a sabedoria na vivência das inúmeras circunstâncias do cotidiano. E, se tivermos que ambicionar algo de alguém, que sejam as elevadas qualidades que lhe caracterizam o ser.

 

 

 

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EM NOSSAS TAREFAS

 

"...não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. ROMANOS. 12: 16

 

“Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo. sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios de água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendamo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas inferiores do monte, com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.  [8]

 

 

 

 

 

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CONVITE À DECISÃO

 

“Nenhum servo pode servir a dois senhores.” (Lucas: capítulo 16, versículo 13.)

 

Será possível o consórcio da Espiritualidade com as ambições mundanas?

Será crível amar as estrelas e demorar-se no charco?

Pode-se estudar o bem e cultivar a ilusão?

Permite-se o concurso da saúde no organismo debilitado?

É factível a dedicação à caridade e o comércio com a rebeldia?

Disse Jesus com propriedade inalterável: —“Não se serve bem a dois

senhores.”

Sem dúvida não nos encontramos diante da necessidade de construir comunidades novas em que a ojeriza ao mundo se patenteie pela fuga aos cometimentos humanos. Não estamos diante de uma imposição para que se edifiquem células quistosas no organismo social, em que os seus membros se transformem em marginais da vida contemporânea. Desejamos aclarar quanto à necessidade de que aquele que encontrou a rota luminosa da Verdade, por um princípio de coerência natural, não se deve permitir engodos.

Desde que não se podem coadunar realidades que se contrapõem, tu que conheces os objetivos da vida não deves permitir fixações e posições falsas que já deverias ter abandonado a benefício da paz interior, enquanto conivindo com atitudes dúbias, navegando no mar das indecisões, estarás na crista e nas baixadas das ondas das dúvidas sob as contingências das posições emocionais em atropelo.

O convite do Cristo tem sido sempre imperioso. Tomando-se da charrua não se deve olhar para trás. Diante do desejo da retificação, marchar para o bem e não tornar ao pecado...

Imprescindível decidas o que desejas da vida, como conduzires a vida, qual a idéia que fazes da vida e por fim marcha na direção da Vida que venhas a eleger como rota para a verdadeira Vida. [9]

 

 

 

Silvia Helena Visnadi Pessenda

sivipessenda@uol.com.br  

 

REFERÊNCIAS

 

[1] KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 8. ed. Araras, SP: IDE, 1995. Cap. III. p. 61-62.

 

[2] ______. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. V. p. 71.

 

[3]  HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). La Fontaine e o comportamento humano. 1. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2007. Cap. “O cachorro que trocou sua presa pelo reflexo”. p. 105.

 

[4]  ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Diretrizes para o êxito. 2. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2004. Cap. 32. p. 188-189.

 

[5] CALLIGARIS, Rodolfo. As leis morais: segundo a filosofia espírita. 6. Ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1991. Cap. “O direito da propriedade’. p. 175.

 

[6] CALLIGARIS, Rodolfo. Páginas de espiritismo cristão. 4. Ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1993. Cap. 2. p. 10.

 

[7] BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

 

[8] EMMANUEL (espírito); XAVIER, Francisco Cândido (psicografado por). Fonte viva. 12. ed.  Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap.118.

 

[9] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Convites da vida. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada. Cap. 10.